As 10 pragas do Egito realmente aconteceram?


A transformação de toda a água em sangue, a proliferação de rãs, infestação de piolhos ou mosquitos, um enxame de moscas, a morte dos animais, aparição de úlceras na população, uma chuva de pedras, uma nuvem de gafanhotos, trevas no céu e a morte dos primogênitos foram as 10 pragas do Egito, de acordo com a bíblia.

Contexto bíblico

Antes de Moisés liderar a jornada de 40 anos pelo deserto a caminho da terra de Canaã, ele precisou convencer o faraó a libertar os hebreus, que eram escravos na região do Egito. Na tradição cristã, é contado que dez pragas ou calamidades foram rogadas sobre a terra dominada pelo faraó. As condições de libertação do povo hebreu só aconteceu após a décima praga, o que possibilitou o episódio conhecido como êxodo. 

A história das 10 pragas do Egito pode ser encontrada na Bíblia entre Êxodo 7:14 e Êxodo 12:36. Historiadores e teólogos também associam as característica destas pragas como uma forma de resposta e humilhação aos deuses e deusas cultuados no Egito Antigo. Cada uma das pragas teria, portanto, uma relação com algum destes deuses. 

Mas seriam estas pragas realmente eventos históricos ou simplesmente um diverso número de desastres naturais? Muitos investigadores apontam que as pragas descritas na bíblia se assemelham a fenômenos naturais que podem ter ocorrido como uma sucessão de eventos em cadeia e se espalhado com rapidez por aquela terra. 

1. Água do Egito transformada em sangue

Ilustração de Água é transformada em sangue por James Tissot (antes de 1903)
Pintura "Água é Transformada em Sangue" por James Tissot (antes de 1903).

De acordo com a Bíblia, a primeira praga que assolou a população do Egito foi a transformação de toda a água em sangue. Moisés e seu irmão, Arão, foram enviados como mensageiros de Deus para instruir o faraó a libertar as crianças de Israel para que elas servissem ao Senhor. O faraó, contudo, desprezou o pedido e recebeu a primeira das pragas. 

Assim diz o Senhor: Nisto saberás que eu sou o Senhor: Eis que eu com esta vara, que tenho em minha mão, ferirei as águas que estão no rio, e tornar-se-ão em sangue. E os peixes, que estão no rio, morrerão, e o rio cheirará mal; e os egípcios terão nojo de beber da água do rio.

Êxodo 7:17,18

O que esta praga tem a ver com deuses egípcios? Na mitologia egípcia, a divindade Hapi era a personificação das águas do Rio Nilo. Seu nome significa “Fonte do Nilo” e a praga sobre as águas do Egito é associada a superioridade de Deus em relação à Hapi. 

O que diz a ciência?  A erupção de um vulcão na ilha de Santorini é uma das teorias para a explicação das muitas pragas que assolaram o Egito. Alguns investigadores acreditam que as partículas de ferro e gás liberadas nas águas podem ter provocado a mudança de coloração nas águas do território. Outra teoria é a de que microalgas marinhas tóxicas se proliferaram na região. Elas causam a coloração vermelha, especialmente, quando se alastram em regiões de zonas portuárias e podem acabar matando animais e causar problemas de respiração em pessoas que moram nas proximidades.

2. Proliferação de rãs 

Ilustração da Segunda Praga do Egito. A Praga dos sapos. (Wellcome Library, London)
Ilustração da "Segunda Praga do Egito. A Praga dos sapos." (Wellcome Library, Londres).

A invasão de rãs pelo território do Egito foi a segunda praga relatada na bíblia. O faraó continuou a ignorar os pedidos de Moisés e convocou ilusionistas (ou mágicos) para reproduzir o que ele achava que era um “truque” feito pelo profeta. Em relação às rãs, apesar de outras pessoas reproduzirem o seu surgimento, apenas Moisés conseguia fazer com que elas fossem embora. 

E o rio criará rãs, que subirão e virão à tua casa, e ao teu dormitório, e sobre a tua cama, e às casas dos teus servos, e sobre o teu povo, e aos teus fornos, e às tuas amassadeiras.


Êxodo 8:3

O que esta praga tem a ver com deuses egípcios? Esta praga se relaciona à deusa Heket na mitologia egípcia. Ela era a divindade da fertilidade e é descrita como uma mulher com cabeça de sapo. O fato de Moisés conseguir controlar os sapos era uma afronta e humilhação a deusa adorada pelos egípcios. 

O que diz a ciência? Existem duas explicações científicas para a ocorrência desta proliferação de anfíbios. A primeira se relaciona às algas tóxicas que podem ter contaminado o Nilo e ter feito com que as rãs fugissem de suas margens. A segunda é relacionada a erupção do vulcão na ilha de Santorini, que contaminou a água do Egito e fez com que as rãs migrassem para outras regiões. 

3. Piolhos ou mosquitos

É debatido se a terceira praga do Egito foi uma infestação de piolhos ou de mosquitos. Em algumas versões do livro sagrado é dito: 

Disse mais o Senhor a Moisés: Dize a Arão: Estende a tua vara, e fere o pó da terra, para que se torne em piolhos por toda a terra do Egito.
Êxodo 8:16

O que esta praga tem a ver com deuses egípcios? A passagem diz que Arão transformou o pó da terra em insetos e isso poderia ser uma afronta ao deus Geb, divindade relacionada à terra ou ao deus Thot, deus do conhecimento, da sabedoria e da magia. 

O que diz a ciência? O clima seco e quente do território egípcio pode ter propiciado a infestação de piolhos, sendo comum os habitantes desta região rasparem o cabelo devido a proliferação deste inseto. Contudo, alguns cientistas acreditam que o vulcão que entrou em erupção na ilha de Santorini pode ter feito com que as pessoas parassem de tomar banho nos rios contaminados e isso fez com que mais mosquitos aparecessem na região. 

4. Enxame de moscas

Ilustração de A Praga das Moscas por James Tissot (antes de 1903).
Pintura "A Praga das Moscas" por James Tissot (antes de 1903).

Ainda sem sucesso em persuadir o faraó, Moisés rogou a quarta praga sobre o Egito, um enxame de moscas. Em Êxodo é dito: 

Porque se não deixares ir o meu povo, eis que enviarei enxames de moscas sobre ti, e sobre os teus servos, e sobre o teu povo, e às tuas casas; e as casas dos egípcios se encherão destes enxames, e também a terra em que eles estiverem.
Êxodo 8:21

O que esta praga tem a ver com deuses egípcios?  A praga das moscas poderia estar associado à humilhação da divindade Khepri, que na mitologia egípcia era a personificação do sol e tinha como imagem associada o escaravelho, mas também poderia se relacionar ao deus Thot, senhor da magia nesta mitologia. 

O que diz a ciência? Investigadores acreditam que o fim da proliferação de rãs e sua migração para outras regiões fez com que dessa vez, as moscas de reproduzissem e se espalhassem com mais rapidez, causando a praga mencionada na bíblia. Outra teoria diz que devido a erupção do vulcão na ilha de Santorini, a toxicidade das águas atraiu mais moscas ao território. 

5. Morte dos animais

Pintura A Quinta Praga do Egito por Joseph Mallord William Turner (1800)
Pintura "A Quinta Praga do Egito" por Joseph Mallord William Turner (1800).

A quinta praga que assolou o Egito de acordo com a bíblia foi uma peste jogada sobre os animais. Esta praga veio como um aviso prévio ao faraó. No livro sagrado é dito: 

Porque se recusares deixá-los ir, e ainda por força os detiveres, Eis que a mão do Senhor será sobre teu gado, que está no campo, sobre os cavalos, sobre os jumentos, sobre os camelos, sobre os bois, e sobre as ovelhas, com pestilência gravíssima.
Êxodo 9:2,3

O que esta praga tem a ver com deuses egípcios? A praga nos animais se associa ao poder de Deus sobre a divindade Hatos, que na mitologia egípcia estava relacionada ao céu, ao amor e à proteção. Também se relaciona a outros deuses como Nut (a deusa do céu) e Seráfis (a deusa vaca).

O que diz a ciência? Seguindo a sucessão de desastres naturais, investigadores acreditam que esta praga está relacionada às moscas. Elas são transmissoras de doenças que podem matar diversos animais, em especial o gado.

6. Úlceras na população

Os egípcios foram atormentados por úlceras em seus corpos devido à sexta praga relatada na bíblia. Esta foi a primeira praga que afetou diretamente as pessoas do Egito. A passagem da bíblia diz que: 

Tomai vossas mãos cheias de cinza do forno, e Moisés a espalhe para o céu diante dos olhos de Faraó; E tornar-se-á em pó miúdo sobre toda a terra do Egito, e se tornará em sarna, que arrebente em úlceras, nos homens e no gado, por toda a terra do Egito.
Êxodo 9:8,9

O que esta praga tem a ver com deuses egípcios? Esta praga se associava especialmente a uma das principais divindades da mitologia egípcia, a deusa Ísis. Ela era a deusa do amor, da fertilidade, da magia e, consequentemente, se relacionava  medicina antiga. Outros teólogos relacionam a praga à humilhação da deusa Neite, deusa do céu nesta mitologia. 

O que diz a ciência? Como consequência da proliferação de moscas, alguns cientistas e investigadores acreditam que as úlceras que assolaram a população foram resultado das picadas destes insetos. Outra teoria é a de que o vulcão que entrou em erupção na ilha de Santorini liberou gases tóxicos que causaram feridas na pele das pessoas e dos animais. 

7. Chuva de Pedras

Pintura A Sétima Praga por John Martin (1823).
Pintura "A Sétima Praga" por John Martin (1823).

O Faraó, ainda sem conceder liberdade ao povo hebreu, foi advertido mais uma vez por Moisés. A sétima praga rogada foi uma chuva de pedras que iria assolar o território egípcio: 

Então disse o Senhor a Moisés: Estende a tua mão para o céu, e haverá saraiva em toda a terra do Egito, sobre os homens e sobre o gado, e sobre toda a erva do campo, na terra do Egito.
Êxodo 9:22

O que esta praga tem a ver com deuses egípcios? Essa praga estava associada diretamente à humilhação das divindades egípcias relacionadas aos fenômenos e elementos da natureza, como Nut, Íris e Osíris. 

O que diz a ciência? Os cientistas acreditam que esta “chuva de pedras” nada mais foi do que uma forte chuva de granizo, ou seja, a precipitação de pedaços de gelo sobre a terra. No entanto, outros investigadores apontam para o vulcão que entrou em erupção na ilha de Santorini, que pode ter liberado pedras que caíram sobre o território egípcio. 

8. Nuvem de Gafanhotos 

A oitava praga do Egito foi uma nuvem de gafanhotos que assolou todo o território egípcio, de acordo com o livro de Êxodo. Esta praga afetaria a população através do seu alimento, pois uma nuvem de gafanhotos é capaz de dizimar quilômetros de plantações. Mesmo sendo avisado, o faraó novamente não concedeu liberdade ao povo e Moisés o avisou: 

Porque se ainda recusares deixar ir o meu povo, eis que trarei amanhã gafanhotos aos teus termos.
Êxodo 10:4

O que esta praga tem a ver com deuses egípcios? Esta praga estava relacionada ao deus Seth na mitologia egípcia. Ele era o deus do caos, da seca e da guerra. 

O que diz a ciência? Os eventos naturais que podem ter acontecido na região são a explicação para esta enxurrada de gafanhoto no Egito. Tanto a proliferação de outros animais podem ter causado uma alteração na cadeia alimentar, quanto a erupção do vulcão na ilha de Santorini podem ter ocasionado a migração dos insetos para o território egípcio. 

9. Trevas no céu 

A escuridão tomou conta do Egito por três dias seguidos como a nona praga relatada na bíblia. Ela veio sem anúncio ao Faraó, que continuava recorrendo aos deuses que cultuava. A passagem em Êxodo diz:

Então disse o Senhor a Moisés: Estende a tua mão para o céu, e virão trevas sobre a terra do Egito, trevas que se apalpem. E Moisés estendeu a sua mão para o céu, e houve trevas espessas em toda a terra do Egito por três dias.
Êxodo 10:21,22

O que esta praga tem a ver com deuses egípcios? Esta praga era uma afronta ao deus mais importante da mitologia egípcia, Rá, o deus do sol, criador do mundo, dos deuses e da humanidade. 

O que diz a ciência? Muitos fatores naturais podem explicar essa escuridão que pode ter assolado o Egito como descrito na bíblia. Entre elas, um eclipse solar, uma forte tempestade de areia ou nuvens provocadas pela erupção do vulcão na ilha de Santorini. 

10. Morte dos Primogênitos

Pintura "Lamentações sobre a morte dos primogênitos do Egito" por Charles Sprague Pearce (1877).

De acordo com a bíblia, antes da última praga ser rogada no Egito, o faraó ameaçou Moisés de morte e foi então que o profeta revelou que todos os primogênitos daquela terra morreriam. 

Disse mais Moisés: Assim o Senhor tem dito: À meia-noite eu sairei pelo meio do Egito;
E todo o primogênito na terra do Egito morrerá, desde o primogênito de Faraó, que haveria de assentar-se sobre o seu trono, até ao primogênito da serva que está detrás da mó, e todo o primogênito dos animais.
Êxodo 11:4,5

O que esta praga tem a ver com deuses egípcios? O faraó era adorado no Egito como o maior dos deuses. As pessoas acreditavam que ele era filho de Rá encarnado. Esta última praga foi uma resposta do poder de Deus sobre todas as pessoas daquela terra. 

O que diz a ciência? Se a história bíblica for verdade, cientistas acreditam em duas teorias para explicar a morte de muitos primogênitos. Como consequência dos vários desastres naturais que aconteceram no território, grande parte dos alimentos podem ter sido infectados. Naquela época, era comum que os filhos mais velhos se alimentassem antes dos mais novos e, portanto, eles poderiam ter sido infectados pela comida e mortos primeiro. Em relação a erupção do vulcão na ilha de Santorini, os primogênitos, por terem o costume de dormir no chão, teriam sido mortos pelo dióxido de carbono emitidos pela erupção, tendo em vista que é um gás pesado e fica mais presente no chão. 

As pragas do Egito em tempos modernos 

As teorias apresentadas para explicar os fenômenos descritos na bíblia em relação às pragas do Egito possuem duas vertentes principais. A primeira é a do físico britânico Colin John Humphreys, que em seu livro “Os Milagres do Êxodo”, relacionou as pragas do Egito a meros fenômenos naturais que acontecem com frequência em nosso planeta. 

Outra teoria muito difundida foi explorada no documentário “O Êxodo Decodificado”. O filme foi lançado em 2006 e relaciona os fenômenos descritos na bíblia à erupção de um vulcão na ilha de Santorini, que fica há poucos quilômetros do Egito.

Estes fenômenos naturais que poderiam ser a explicação para as chamadas “pragas do Egito” podem ser vistos até nos dias de hoje. 

O fenômeno da maré vermelha 

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Assim como pode ter acontecido no Egito na dita “primeira praga” na bíblia, o fenômeno chamado de maré vermelha acontece pela aglomeração de micro-planctons dinoflagelados. No Brasil possuímos alguns exemplos deste fenômeno que acontecem nos rios vermelhos de Goiás, Santa Catarina, Paraná, São Paulo e Mato Grosso. 

Morte de gado devido a moscas 

Foto de mosca do estábulo

Investigadores e cientistas acreditam que a morte de muitos animais como descrito na bíblia sendo a quinta praga do Egito, pode ter sido causada pela proliferação de moscas. A chamada mosca-de-estábulo, por exemplo, é um problema que assola diversas regiões rurais no Brasil. Esse tipo de inseto se alimenta do sangue de bois, vacas, cavalos, cães e até de seres humanos. No caso do gado, o animal começa a apresentar problemas de saúde aos poucos, parando de comer e inevitavelmente falecendo. 

Úlceras causadas pelos gases de um vulcão 

Foto do Lago Nyos no Camarões
Foto do Lago Nyos no Camarões.

As úlceras que são relatadas como a sexta praga do Egito podem ser resultado dos gases liberados pelo vulcão de Santorini. Fenômeno parecido aconteceu no noroeste de Camarões em 1986, quando gases de um vulcão inativo foram libertados subitamente para a atmosfera no lago Nyos. Quase 2000 pessoas morreram pelo dióxido e monóxido de carbono naquela região. 

Chuva de Pedras 

Foto de pedras de granito

A sétima praga do Egito foi a chuva de pedras. Muitos investigadores acreditam que se ela aconteceu, foi na realidade uma chuva de granizo. Curiosamente, estas pedras de gelo são mais fáceis de se formar em locais mais quentes, pois elas só se formam em um tipo de nuvem chamada de cumulonimbus

Nuvem de gafanhotos 

Foto de nuvem de gafanhotos

Uma nuvem ou chuva de gafanhotos tal como descrito como a oitava praga do Egito acontece quando existem condições favoráveis para estes insetos se alastrarem, tal como tempo quente e seco, vento e alimento. Em 2020, dezenas dessas nuvens de insetos assolaram partes dos territórios do Paraguai e da Argentina, quase chegando ao sul do Brasil. O fenômeno teve que ser controlado e monitorados pelas autoridades dos países, pois estes insetos são capazes de acabar com quilômetros de plantações de cereais. 

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