Deuses indígenas: tudo que você precisa saber sobre os deuses da cultura brasileira


Estima-se que existiam cerca de 5 milhões de índios divididos em mais de 1000 povos no Brasil até a invasão portuguesa. Todos eles possuíam uma rica história religiosa que são fundamentais para compreendermos o folclore e a mitologia nativa brasileira

Deuses conhecidos como Tupã, Guaraci e Jaci são parte da mitologia tupi-guarani, a mais difundida e preservada entre os povos indígenas brasileiros. Esta mitologia deve, contudo, ser lida com cautela. Muitos antropólogos e investigadores afirmam que grande parte destes mitos foi alterado pelos europeus no processo de catequização no século XVI. 

Deuses da mitologia tupi-guarani 

Nhanderuvuçu, o deus criador 

É a figura principal e deus criador na mitologia tupi-guarani. De acordo com a lenda, ele primeiro destruiu tudo e depois criou duas almas e delas surgiu a matéria. Nhanderuvuçu também criou os lagos, a neblina e o vento. Ele separou o caos da ordem e deu origem a outros deuses e seres divinos, como Tupã, Yara e Curupira. O deus criador é também responsável pela criação de Kayuá, ou o “dom da palavra”, que deu início a narrativa do mundo. 

Tupã, o deus do trovão 

Figura representando o deus Tupã

Em algumas versões da mitologia tupi-guarani, Tupã aparece como o deus criador do universo. Contudo, muitos historiadores acreditam que esta versão foi implementada pelos jesuítas durante o período de catequização dos povos indígenas. Estudiosos afirmam que Tupã era na realidade a manifestação do deus criador na forma do trovão. 

Em alguns livros, o senhor do trovão seria o criador do céu, dos mares, da terra e da humanidade. Ele também seria o responsável por ensinar aos homens sobre o artesanato, a caça e as plantas medicinais. 

Guaraci, o deus do Sol

Filho de Tupã, Guaraci seria o guardião do dia. Algumas versões da mitologia apresenta o deus do sol como auxiliador na criação de todos os seres vivos. Ele era casado com sua irmã Jaci, personificação da Lua. Assim como em outras mitologias que tinham divindades relativas ao Sol, Guaraci seria um importante deus para os tupi-guaranis, tal como Apolo na mitologia grega, Osíris na mitologia egípcia e Brahma na mitologia hindu. 

Jaci, a deusa da Lua

Representação da deusa Jaci

Filha de Tupã, Jaci era a mais bela das deusas e a personificação da Lua. Ela era a protetora das plantas, guardiã da noite, da reprodução e dos amantes. Algumas versões da mitologia tupi-guarani contam que Guaraci, cansado, acabou certo dia fechando os olhos. As trevas caíram sobre a terra e Tupã criou Jaci para iluminar a noite. Quando acordou, Guaraci se apaixonou por Jaci. 

Uma história atrelada à Jaci diz respeito à criação da planta vitória régia. De acordo com a lenda, Jaci se sentia solitária no céu e por isso descia à Terra para levar índias virgens para o céu e transformá-las em estrela. A índia Naiá desejava muito se tornar uma estrela e toda noite fugia em busca da lua. Certa vez, observando o reflexo da lua nas águas de um lago acabou se afogando. Jaci presenciou o acontecimento e a transformou em uma vitória régia, para viver para sempre entre a Lua e os lagos. 

Rudá, o deus do amor

Representação do deus Rudá

Habitante das nuvens, Rudá é o deus do amor e do afeto na mitologia tupi-guarani. Guaraci teria criado Rudá como um mensageiro de seu amor por Jaci, já que estavam separados entre o dia e a noite. 

A Lua cheia e a Lua nova era o momento ideal para os índios que desejavam clamar para que Rudá protegesse suas intenções amorosas. De acordo com algumas versões do mito, Rudá vivia acompanhado por Cairé, a Lua cheia e Caititi, a Lua nova. Este deus é o equivalente à Eros na mitologia grega e Cupido na mitologia romana. 

Ceuci, a deusa das lavouras e da moradia 

Comparada pelos jesuítas à Virgem Maria, Ceuci era a protetora das lavouras e da moradia na mitologia tupi-guarani. Virgem, ela deu luz à Jurupari, filho do Sol. De acordo com algumas versões da lenda, Ceuci ficou grávida após comer um fruto proibido que expeliu um líquido que a inseminou. 

Por desobedecer uma lei de Tupã, foi atingida por um raio e se transformou em uma estrela da constelação de Plêiades. Essa constelação aparece no céu no período de maturação das frutas e é também um período especial para a caça. Isso explicaria a representação da deusa em relação à lavoura. 

Sumé, o deus da agricultura e da disciplina

Enviado por Tupã, Sumé é muitas vezes descrito como um senhor velho e de barba branca, como é normalmente representado um profeta. Ele era o guardião da agricultura e muitos relatos afirmam que sua figura representou questões de disciplina e organização social para muitos povos indígenas antes da chegada dos portugueses. 

No período de catequização, os católicos associaram a figura de Sumé ao apóstolo cristão São Tomé. Algumas lendas contam que ele teve dois filhos, Tamandaré e Ariconte.

Anhangá, protetor dos animais e deus do submundo 

Representação do deus Anhangá

Figura presente na mitologia de diversos povos indígenas, Anhangá é representado como protetor dos animais e caçadores, mas também um espírito maligno, capaz de atrair má sorte. Algumas versões apontam que ele seria o deus do submundo, ou territórios infernais. 

É contado também que esta divindade podia se transformar em muitos animais. Algumas tribos diziam, por exemplo, que quando um animal conseguia fugir de uma caça era porque Anhangá o protegeu. 

Teju Jagua, deus das cavernas e frutas

O deus Teju Jagua é um dos sete filhos lendários de Kerana (filha de Marangatu, um dos primeiros humanos) e Tau (espírito maligno). Teju era um monstro que tinha como representação o corpo de lagarto e sete cabeças de cachorro. 

Sua representação era a mais terrível entre os sete irmãos, mas seu temperamento era controlado por Tupã, que conseguia deixá-lo calmo e inofensivo. Ele se alimentava de frutas e é considerado o deus das cavernas e das frutas. Em alguns livros é mencionado também que ele era um protetor brilhante de tesouros escondidos. 

Mboi Tu'i, deus dos cursos de água e criaturas aquáticas

O nome guarani Mboi Tu'i significa cabeça-papagaio. Considerado o deus ligado às águas e criaturas advindas do mar, ele era representado como uma enorme serpente com cabeça de papagaio. Ele é o segundo filho de Kerana e Tau e patrulha os pântanos das florestas. 

Moñai, deus dos campos 

O terceiro filho de Kerana e Tau, Moñai é representado como um monstro com dois chifres eretos e responsável pelo sumiço dos bens materiais dos indígenas. De acordo com a lenda, ele era um excelente ladrão e costumava esconder os furtos em uma caverna. 

Eventualmente foi derrotado pela bela e destemida índia Porâsý, que o persuadiu a celebrar um casamento com todos os outros monstros dentro de uma caverna. Mesmo não conseguindo fugir, Porâsý ordenou que ateassem fogo na caverna para se livrarem do mal dos monstros. Os deuses, observando o sacrifício da índia, a transformaram na estrela d’alva. 

Kurupi, deus da sexualidade e da fertilidade

Também conhecido como curupira amarelo, este monstro era também um dos filhos de Kerana e Tau. Sua representação é a de um anão amarelado e feio que se alimentava de lixo e vivia em locais crepitos. De acordo com a lenda, ele abusava de índios e índias que poderiam estar perdidos nas florestas. 

Ao Ao, deus dos montes e das montanhas

Também conhecido como Ahó Ahó, este deus era mais um filho monstro de Kerana e Tau. Em algumas versões da lenda, ele era representado como uma grande ovelha, em outras, como um grande cachorro. Ambos apresentavam este deus como perigoso e maligno, capaz de matar e comer pessoas. A origem da lenda está associada à criação de seres malignos pelos jesuítas na época de catequização dos povos indígenas. 

Luison, deus da morte 

O último filho de Kerana e Tau, Luison é representado como um lobo  ou um macaco de olhos vermelhos. Sua figura é parecida com o lobisomem. Tal como esta outra criatura mitológica, ele é o resultado de uma maldição que cai sobre o sétimo filho homem de um casal e nas noites de lua cheia se transforma nesta assustadora criatura. 

Importantes deuses de outras tribos indígenas brasileiras

Akuanduba

Um importante deus na mitologia dos índios Aaras, estabelecidos no estado do Pará. Akuanduba é representado como um imponente flautista, responsável pela ordem e obediência do povo. A lenda conta que certa vez ficou enfurecido com a desobediência da população e acabou causando o afogamento de quase todos os seres humanos. Os sobreviventes tiveram que aprender uma nova maneira de viver a partir de então. 

Yorixiriamori

Estabelecidos entre os territórios do Brasil e da Venezuela, os Ianomâmis possuem uma vasta mitologia. Yorixiriamori é uma das divindades mais conhecidas deste povo. Como tinha uma beleza excepcional e voz encantadora, atraía todas as mulheres que desejava. Isto acabou enfurecendo os homens que planejaram seu assassinato. O deus acabou fugindo na forma de um pássaro e nunca mais retornou à terra. 

Wanadi

Este deus aparece na mitologia dos povos Iecuanas, estabelecidos entre as regiões do território brasileiro e venezuelano. De acordo com a lenda, o Sol teria criado três seres primordiais para habitar o planeta Terra. Contudo, apenas Wanadi nasceu belo e perfeito. Por isso, ele representava as coisas boas do mundo. Seus irmãos, deformados e imperfeitos, representariam todas as coisas ruins que aconteciam no mundo. 

Yebá Bëló

Para a população indígena Dessanas, estabelecida entre o território brasileiro e colombiano, Yebá Bëló é a deusa criadora do universo. As lendas relacionadas à esta divindade explicam a criação do Sol e dos seres humanos. A deusa teria surgido do nada e criado as pessoas a partir das folhas de coca que costumava mascar. É dito também que ela morava em um quartzo. Yebá Bëló é também conhecida como a “avó do universo”. 

Os mitos indígenas e a influência católica

Lateral do Monumento a Anchieta, de Heitor Usai, localizado na Pça. da Sé (São Paulo), representa a catequização.
Lateral do Monumento a Anchieta, de Heitor Usai, localizado na Praça da Sé (São Paulo), representa a catequização.

Historiadores e investigadores sobre questões ligadas à cultura indígena brasileira colocam à prova diversos mitos e contos relacionados a estas populações como fruto de uma distorção e criação católica no período de catequização que ocorreu no país no século XVI. 

Entre eles, destacam-se Luís da Câmara Cascudo e Ermanno Stradelli, que questionam por exemplo a existência ou personificação que se criou de Tupã. Para Stradelli, Tupã seria na realidade Tupana, mãe do trovão. 

Para descobrir mais sobre estas histórias, leia: Tupã ou Tupana? Saiba por que alguns deuses indígenas na verdade são deusas

Os índios guarani denominam as palavras que serviam para se dirigir aos seus deuses como As Belas Palavras. Muitos dos mitos milenares destes povos acabaram sendo influenciados pelos jesuítas que forçaram uma assimilação cristã aos índios.

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