Você sabia que esquecer é tão ou mais importante do que memorizar?


É comum encontrarmos textos sobre a importância de se ter uma boa memória. Especialistas dão dicas sobre como melhorar a memória, enfatizando a importância de certos hábitos que estimulem essa função cerebral tão importante. E, de fato, ter uma boa memória é importantíssimo para a nossa vida.

Mas o que pouca gente fala é que o esquecimento é tão ou mais importante do que a memorização. Esquecer é fundamental para uma mente saudável. Sem o esquecimento, não só a nossa memória seria prejudicada, mas também outras atividades ligadas ao conhecimento e à aquisição de novas informações.

É o que dizem os pesquisadores da área de neurociência Carlos Alberto Mourão Júnior e Nicole Costa Faria, da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Para eles, a importância do esquecimento "está relacionada à economia de sinapses e à otimização na ocupação de áreas do córtex cerebral com informações".

Como se formam as memórias?

As memórias se formam através de conexões estáveis entre neurônios, que são as células do sistema nervoso responsáveis por transmitir informações. Os neurônios se encontram nas sinapses. E as memórias se formam quando se estabelecem conexões estáveis entre neurônios, por meio das sinapses. A região do cérebro responsável por realizar a consolidação da memória é o hipocampo.

Hipocampo cérebro humano
Localização do hipocampo no cérebro humano. Crédito: Ultimate Science.

Memórias consideradas complexas (por exemplo, uma fórmula matemática) exigem não uma ou duas, mas bilhões de novas sinapses em muitas áreas do nosso cérebro. Para que seja possível esse incrível armazenamento de informações, o cérebro é capaz de modificar-se - sim, ele promove alterações em si mesmo! E é essa capacidade plástica do cérebro que permite a formação de novas memórias.

Não é novidade que o sono cumpre um papel decisivo no processo de consolidação de memórias relacionadas àquilo que vivemos ao longo do dia. Toda vez que nos deparamos com textos que trazem dicas para como melhorar a memória, é certo que encontraremos um item falando da importância de dormir bem.

Isso acontece através de uma espécie de processo seletivo: algumas informações são excluídas, outras são consolidadas. E quando falamos em exclusão e consolidação, falamos, em termos neurocientíficos, em sinapses. Algumas conexões entre neurônios, aquelas mais frágeis, são desfeitas, ao passo que outras são reforçadas.

neurônio
Representação de neurônios, células responsáveis pela condução de informações na forma de impulsos elétricos.

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A necessidade de esquecer

Claro que esquecer alguma coisa, seja ela uma informação ou uma imagem, nunca é agradável para ninguém. Profissionalmente, aliás, isso é considerado péssimo. Exige-se que as pessoas, além de serem extremamente criativas, lembrem-se de muitas coisas a todo momento. Um vestibulando precisa reter uma quantidade incrível de informações, em diversas áreas do conhecimento, para obter sucesso. E o mesmo se pode dizer no mercado de trabalho.

O que queremos dizer é que a incapacidade de memorizar, quando não é resultado de uma doença ou lesão, é absolutamente necessária à própria memória. "Tão importante quanto conseguir memorizar é conseguir esquecer", dizem os pesquisadores da UFJF.

cérebro humano

Esse esquecimento é uma função adaptativa das chamadas memórias declarativas - aquelas que são de longa duração e permanecem a nível consciente, e que por isso podemos acessar com mais facilidade. As memórias declarativas são classificadas em episódicas - compostas por acontecimentos e eventos vivenciados pelo indivíduo - e semânticas - formadas por símbolos, conceitos, ideias.

Pensando bem, mais esquecemos do que lembramos no nosso dia a dia - ainda bem! Já pensou lembrar de tudo, de cada detalhe do que vivenciamos todos os dias, dos mais importantes aos mais irrelevantes?

Pense na quantidade de informações que são captadas pelos sentidos quando você caminha alguns minutos na avenida principal de sua cidade? Pense nos outdoors, anúncios luminosos, capas de revistas, ruídos, conversas alheias... Reter todas essas informações parece uma tarefa inimaginável, não é mesmo? E nem precisamos de tudo isso para viver melhor.

Estímulos nervosos
Dar um rolê no centro de Nova York pode ser estimulante até demais...

No processo de consolidação de memórias, as "perdas" são absolutamente normais. A dupla de pesquisadores brasileiros explica que esse processo funciona como uma tradução. Já tentou comparar a tradução de um texto com o seu original? Fatalmente haverá algumas "perdas" nesse processo, já que nem sempre o tradutor irá encontrar um sinônimo perfeito. No caso de um poema, para que se mantenha o ritmo, são necessários acréscimos, exclusões.

Passa-se algo parecido na consolidação de memórias. Os neurônios, enquanto tradutores da realidade em termos de potenciais elétricos e alterações bioquímicas, não costumam fazer uma tradução ao pé da letra. Por isso esquecemos. Ou, quando lembramos, não lembramos com a exatidão de uma câmera de vídeo.

Esquecer, portanto, além de ser um processo natural, é vantajoso para nós, seres humanos. E por que é vantajoso? Porque um cérebro sobrecarregado tentando gravar informações a todo instante não é capaz de realizar de forma satisfatória outras atividades cognitivas, como aprender coisas novas e raciocinar.

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