Guerra do Paraguai: qual o papel do Brasil no maior conflito da América do Sul?


Juliana Bezerra
Revisão por Juliana Bezerra • Professora de História
Escrito por Carlos Neto

No maior conflito armado já ocorrido na América do Sul, o Brasil esteve ao lado da Argentina e do Uruguai - a chamada Tríplice Aliança - contra o Paraguai do ditador Francisco Solano López (1827-1870). Foi também a mais longa campanha militar na qual o Brasil já esteve envolvido.

A Guerra do Paraguai (1865-1870), uma das mais sangrentas do século XIX, teve como resultado a vitória da Tríplice Aliança, centenas de milhares de mortos e um Paraguai aniquilado.

Para os que ainda pensam que o Brasil é um país pacífico, saibam de uma coisa: vocês estão completamente enganados. Além da atual violência nas cidades e nos campos, a história está repleta de eventos que demonstram que o nosso grande país nunca foi uma nação paz e amor.

Batalha do Avaí
A Batalha do Avaí, ocorrida em 1868, retratada pelo pintor Pedro Américo.

Onde tudo começou: intervenção do Brasil na Guerra Civil do Uruguai (1864-1865)

Para entender como começou a Guerra do Paraguai e qual foi o comportamento do Brasil nesse gigantesco conflito, devemos retroceder ao ano de 1863, quando ocorre a Guerra do Uruguai, que opôs blancos e colorados numa disputa pelo poder.

O Império do Brasil, de D. Pedro II (1825-1891), ficou ao lado do Partido Colorado, liderado por Venancio Flores (1808-1868), que já contava com apoio do presidente argentino, Bartolomé Mitre (1821-1906). Os blancos eram apoiados pelo Paraguai.

O Brasil invadiu o Uruguai e ajudou os revoltosos a derrubar o governo constitucional em 1864. E isso fez com que o paraguaio López se sentisse ameaçado. Estava em jogo, acima de tudo, a possibilidade de navegação e comércio através do estuário do rio da Prata.

Três motivos para o Brasil entrar em guerra contra o Paraguai

Toda guerra tem as suas motivações políticas, econômicas, sociais, às vezes religiosas. Mas sempre há o chamado estopim, evento ou série de eventos que incendeiam o barril de pólvora. E o que será que motivou o Brasil a entrar em guerra?

1. A tomada do navio Marquês de Olinda

A ação brasileira no Uruguai desagradou López profundamente. A crise intensificou-se com a tomada de um navio brasileiro que subia o Rio Paraguai, já na altura de Assunção. O tenente-coronel e novo presidente da província do Mato Grosso Frederico Carneiro de Campos estava a bordo.

A mando do ditador paraguaio, em 13 de novembro o navio foi apreendido e o militar brasileiro encarcerado, juntamente com toda a tripulação.

2. Invasão do Mato Grosso

Foi isso mesmo que você leu: o Mato Grosso, na época uma província remota e pouco habitada, foi invadida pelos exércitos paraguaios em dezembro de 1864.

A notícia foi recebida com espanto. Houve um afloramento do sentimento nacional, com forte apoio ao governo pela opinião pública, e a certeza de que era preciso reagir aos ataques. Só não se sabia que ali se iniciava uma guerra de tão longa e tão destruidora.

Exército brasileiro
Oficiais brasileiros posam para a foto ao lado de um canhão em 1866.

3. Invasão da Argentina e do Rio Grande do Sul e a criação da Tríplice Aliança

O Paraguai queria unir-se aos blancos, partido que havia acabado de sofrer um golpe no Uruguai. Para isso, tinha de cruzar a Argentina. O ditador paraguaio pediu permissão para Mitre, que não a concedeu, pois preferia manter-se neutro.

Foi assim que a província argentina de Corrientes foi invadida e Argentina pôs-se al lado do Brasil. Em maio de 1865, firmou-se o tratado militar entre Brasil, Argentina e Uruguai, conhecido como Tríplice Aliança. Era o início de uma guerra que duraria 5 anos.

De junho a agosto de 1865, as cidades gaúchas de Uruguaiana, São Borja e Itaqui foram saqueadas e ocupadas por tropas paraguaias.

Como o Brasil e seus aliados derrotaram o exército paraguaio

A vitória se inicia com a retomada de Uruguaiana, no Rio Grande do Sul, e se estende por uma série de batalhas sangrentas que culminaram na captura e a morte do ditador paraguaio.

No início, o exército paraguaio era quatro vezes maior que o brasileiro

A desvantagem numérica era bastante grande no começo da guerra. Para se ter uma ideia do grau de militarização do Paraguai de López, o exército paraguaio, com cerca de 60 mil homens, era quatro vezes maior que o brasileiro. O exército argentino contava com apenas 8 mil homens. Nenhum outro exército sul-americano era tão poderoso quanto o paraguaio.

Ora, com tamanha desvantagem, como o Brasil e seus aliados poderiam fazer frente ao poderio paraguaio?

A solução brasileira: os Voluntários da Pátria

Mas rapidamente o Brasil conseguiu converter sua superioridade populacional em superioridade de soldados. Além da convocação da Guarda Nacional, foram organizadas tropas improvisadas, os Voluntários da Pátria. Tem alguma avenida ou praça na sua cidade com esse nome? Se sim, saiba que ele veio daí.

Em 1866, um ano depois do início do conflito, o Brasil, o país aliado que mais colocou homens em combate, já contava com quase 150 mil homens, frente a 100 mil paraguaios. Às tropas brasileiras ainda se somaram cerca de 30 mil argentinos e outros milhares de uruguaios prontos para lutar.

A rápida retomada de Uruguaiana e o encontro entre D. Pedro II, Mitre e Flores

D. Pedro II
D. Pedro II foi imperador do Brasil entre 1831 e 1889.

Se a deflagração da guerra veio com a ocupação de Uruguaiana pelos paraguaios em agosto de 1865, foi com a retomada dessa cidade às margens do rio Uruguai que a Tríplice Aliança começou a sua reação. Após cercar a cidade, os paraguaios se renderam no dia 18 de setembro, antes mesmo de se iniciarem os ataques.

Um fato curioso: ali se encontraram os chefes dos 3 exércitos aliados. Do lado brasileiro, o imperador D. Pedro II; do lado uruguaio, Venancio Flores; e do lado argentino, Bartolomé Mitre, comandante-em-chefe dos aliados.

Depois disso, retomou-se o território argentino de Corrientes, por onde os soldados paraguaios haviam passado para invadir o Brasil. O próximo estágio era o ataque ao território paraguaio.

Batalha do Riachuelo: vitória das forças navais brasileiras

Mas bem antes da ofensiva ao território paraguaio, houve uma importantíssima batalha naval que ocorreu simultaneamente à invasão do Rio Grande do Sul pelos paraguaios.

O controle dos rios era extremamente importante numa época em que o transporte e a comunicação por vias terrestres eram extremamente precárias. Daí a relevância da bacia do rio da Prata durante a guerra.

Em julho 1865, logo no primeiro ano do conflito, a marinha brasileira consegue uma importante vitória naquela que ficou conhecida como a Batalha Naval do Riachuelo, ocorrida na província argentina de Corrientes.

A vitória dos aliados nessa batalha é considerada decisiva pelos historiadores, já que isso representava o controle da bacia do rio da Prata, inviabilizando quaisquer contatos do exército paraguaio com o estrangeiro. Lembremos que o território paraguaio não possui saída para o mar, sendo a rota fluvial da Prata seu único caminho.

Batalha do Riachuelo
Batalha Naval do Riachuelo, por Oscar Pereira da Silva. Dá para ver a bandeira do Império do Brasil ao fundo.

O Brasil invade o Paraguai

Em abril de 1866, inicia a ofensiva em território paraguaio. O Império do Brasil consegue uma importante vitória na Batalha do Passo da Pátria, nome de uma aldeia paraguaia que fica às margens do rio Paraná. O posto em terreno paraguaio havia sido conquistado. Mas o problema era como avançar ainda mais.

Por mais de 2 anos, a guerra ficou concentrada nessa região onde se encontram os rios Paraná e Paraguai. Fortificações paraguaias conseguiram conter o avanço aliado.

Em maio de 1866, quando dezenas de milhares de soldados aliados acampavam na região sudoeste do Paraguai, ataques de cavalaria paraguaia deram início à maior batalha de toda a história da América do Sul: a Batalha de Tuiuti, envolvendo mais de 30 mil aliados e aproximadamente 25 mil paraguaios.

Outra vitória aliada. Estima-se que 6 mil soldados paraguaios tenham sido mortos nessa sangrenta batalha, que deixou a guerra praticamente decidida em favor do Brasil e seus aliados.

Tomada de Humaitá e a "Dezembrada": o papel do comandante brasileiro Duque de Caxias

Já sob comando do Duque de Caxias (1803-1880), considerado o maior militar brasileiro, o exército imperial consegue tomar o principal centro de resistência inimigo: a Fortaleza de Humaitá. Após um cerco, a fortaleza foi tomada em julho de 1868.

Duque de Caxias
Antes Marquês de Caxias, o Duque recebeu esse título em virtude de seus feitos na Guerra do Paraguai.

A "Dezembrada" foi uma série de batalhas ocorridas em dezembro de 1868 e cujo desfecho praticamente sela o resultado da guerra. Nessas batalhas destacou-se o gênio militar do estrategista Duque de Caxias, responsável por sucessivas vitórias que terminaram por aniquilar o exército paraguaio. Acompanhado por um pequeno número de cavaleiros, López conseguiu escapar.

No dia 5 de janeiro de 1869, os aliados entraram na capital paraguaia, Assunção.

Morte de López e fim da guerra

Embora já estivesse decidida, a guerra não terminou com a "Dezembrada". López ainda resistiu, reunindo um novo exército, embora muito menor que o anterior.

Já sob comando do genro de D. Pedro II, marido da Princesa Isabel, o Conde d'Eu (1842-1922), os aliados continuaram avançando. Após vitórias em Peribebui e Campo Grande, a vitória final, que terminou com a morte de López, deu-se na Batalha de Cerro Corá, em 1º de março de 1870.

Pelo que se sabe, o ditador paraguaio fugiu após a batalha, mas foi alcançado. Já ferido e diante da recusa de se render, foi morto.

Número de mortos e consequências da guerra

Guerras são sempre destruidoras, mas sabemos que algumas são mais do que outras. Estima-se que 200 mil pessoas, entre civis e militares, tenham morrido por causa dos conflitos armados entre os anos de 1865 e 1870, sendo que muitas delas morreram em virtude de doenças, como a cólera e a malária.

O Paraguai, como dissemos, foi aniquilado, tendo perdido 1/3 de sua população (cerca de 80 mil pessoas). Entre os brasileiros, as perdas giram em torno de 50 mil, embora esses dados não sejam precisos.

Do lado aliado, além das vidas perdidas, seguiu-se uma enorme crise econômica, provocada pelas gigantescas dívidas decorrentes dos empréstimos contraídos para financiar os gastos bélicos. Manter operações expedicionárias, como fizeram Brasil, Argentina e Uruguai, custa muito caro. E esses países tiveram que lidar com as consequências desses gastos após o fim da guerra.

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Juliana Bezerra
Revisão por Juliana Bezerra
Bacharelada e Licenciada em História, pela PUC-RJ. Especialista em Relações Internacionais, pelo Unilasalle-RJ. Mestre em História da América Latina e União Europeia pela Universidade de Alcalá, Espanha.