História do dinheiro: como ele surgiu e sua evolução


O dinheiro, tal como conhecemos hoje, surgiu no século VII a.C. num reino da Ásia Menor chamado Lídia, localizado na atual Turquia ocidental. Quem diz isso é o historiador grego Heródoto (485-425 a.C.), em suas Histórias. Trata-se do primeiro registro da utilização de peças metálicas (moedas) como forma de dinheiro. 

moeda da Lídia
Moeda lídia do século VII a.C.: a primeira moeda do mundo.  

Porém, muito antes do surgimento das moedas lídias, algumas mercadorias já eram utilizadas como meios de troca, tais como búzios, âmbar, marfim, couro e até animais, como bois e porcos. Os lídios podem ter inventado a moeda, mas não inventaram o dinheiro.  

Não se sabe ao certo a origem do uso de mercadorias como meio de troca. Em outras palavras: não se sabe ao certo quando nem onde o dinheiro surgiu. Mas existem algumas teorias que tentam entender de que forma isso aconteceu.

Como surgiu o dinheiro 

Uma dessas teorias é apresentada pelo economista austríaco Carl Menger (1840-1921). Em seu livro Princípios de Economia Política, Menger divide a história da economia em algumas fases.

Fase 1: unidades familiares isoladas

A primeira delas seria marcada pelo isolamento de unidades familiares que só produziriam de acordo com as suas necessidades. Só têm valor as coisas produzidas para consumo próprio, e não existe produção voltada para o mercado – porque não existe mercado.

Fase 2: início das trocas

Num estágio seguinte, esse isolamento é rompido, e há trocas de produtos, porém não existe um elemento mediador. Dá-se o nome de permuta ou escambo a essa troca direta, sem a existência do dinheiro.  

Segundo Menger, uma das razões para a troca seria a divisão do trabalho. Algumas pessoas ou grupos passariam a se especializar num determinado ramo, oferecendo produtos ou serviços para outras pessoas.   

Fase 3: surgimento do meio de troca

Com o tempo, uma mercadoria se destaca pelo seu alto grau de vendabilidade, e as pessoas passam a aceitar essa mercadoria como meio de troca, mesmo que não precisem dela imediatamente. Elas sabem que, pelo seu elevado grau de vendabilidade, poderão usá-la no futuro para adquirir os produtos que desejam.

Essa prática acaba se tornando um hábito entre os indivíduos, fazendo com que o uso de uma determinada mercadoria como meio de troca se torne comum. Depois disso, ocorre a aceitação geral e a disseminação desse meio de troca (dinheiro).   

Fase 4: cunhagem de moedas 

Um estágio posterior é o da cunhagem de moedas por uma autoridade central, tal como se faz desde o século VII a.C. Além de meio de troca, a moeda passa a cumprir a função de unidade de conta, ou seja, uma referência para medir o preço das mercadorias.  

Evolução do dinheiro

As moedas lídias, as mais antigas do mundo, eram feitas de uma liga metálica natural chamada electrum. Composto por ouro e prata, o electrum era facilmente encontrado nos rios da região. As moedas lídias eram peças metálicas pequenas, arredondadas e achatadas; ou seja, eram bem parecidas com as moedas atuais. Numa das faces, havia gravada a imagem de um leão, símbolo da dinastia que estava no poder na época. 

Da Lídia, o uso da moeda espalhou-se por outras localidades, como a Pérsia, a Jônia e a Grécia. Surgiram, assim, outras moedas, com outros nomes e marcas distintivas. Já no século VI a.C., as moedas já eram largamente utilizadas na capital da Grécia, Atenas. 

Nos tempos antigos, os maiores responsáveis pela disseminação do uso da moeda metálica foram os gregos. Devido à colonização de territórios e ao comércio, o uso do dinheiro em forma de moedas metálicas expandiu-se rapidamente, chegando à Península Ibérica ao norte da África. 

moedas gregas
Moeda de prata grega chamada tetradracma, que circulou na Grécia entre 510-38 a.C.

Sob influência dos gregos, o uso da moeda é adotado em Roma. O processo de cunhagem de moedas pelos romanos começou no século IV a.C. Antes disso, os romanos já utilizavam o metal em suas transações comerciais: primeiro, pedaços de metal, como o bronze e o cobre, que valiam de acordo com o peso; depois, passaram a usar barras mais padronizadas de bronze. A primeira moeda produzida pelos romanos, chamada de aes grave, era feita de bronze.

moedas romanas
Moedas de bronze romanas do século III a.C. 

Na China, a moeda surge nessa mesma época. Um dado curioso sobre as primeiras moedas chinesas é que elas não tinham o formato de disco que caracterizava as moedas ocidentais. As primeiras moedas chinesas eram pequenas pás e facas feitas de bronze que, com o passar do tempo, foram se tornando cada vez menores. 

moedas chinesas antigas
Catálogo de moedas antigas chinesas am formato de faca e pá. 

Aliás, foram os chineses, por volta do ano 800 d.C, que inventaram o papel moeda. O uso do papel moeda surgiu da necessidade de se transportarem grandes quantidades de dinheiro de uma localidade para outra. Em vez de carregar barris de moedas metálicas, o governo chinês julgou muito mais fácil transportar certificados de dinheiro em papel. Mais tarde, os possuidores desses certificados poderiam trocá-los pelo valor equivalente em moedas. Por cruzar grandes distâncias, essas cédulas chinesas eram chamadas popularmente de “dinheiro voador”.

papel moeda chinês dinastia Yuan
Cédula chinesa da dinastia Yuan (1271-1368). 

O papel moeda demorou quase mil anos para chegar à Europa, embora sua existência já fosse conhecida pelos europeus através dos relatos das viagens de Marco Polo. Só em 1661, na Suécia, as primeiras notas começaram a circular. Com o sucesso da iniciativa, a prática começou a ser copiada pelos governos de outros países. Em Portugal, o papel moeda surge em 1796, durante o reinado de D. Maria I.

Breve história do dinheiro no Brasil

500 réis dinheiro Brasil
A nota de 500 réis circulou no Brasil durante o reinado de D. Pedro II, no século XIX. 

No Brasil, a história do dinheiro se inicia no período colonial, a partir do momento em que os europeus desembarcaram na costa brasileira, em 1500. Na verdade, o uso de dinheiro aqui no Brasil levou um pouco mais de tempo, já que, no início, as trocas comerciais com os indígenas eram feitas de modo direto (escambo).

Europeus de diversas nacionalidades introduziram moedas em território brasileiro. Oficialmente, a moeda portuguesa passou a circular no Brasil em 1568, após determinação do rei D. Sebastião. A primeira moeda brasileira chamava-se réis.

Com a criação da Casa da Moeda, em 1694, o Brasil passou a cunhar seu próprio dinheiro. Até então, todo dinheiro que circulava por aqui era trazido da Europa.

Outra data importante da história do dinheiro no Brasil é a criação do Banco do Brasil, em 1808, época em que a corte portuguesa havia se transferido para cá após as invasões napoleônicas. Data desse período a emissão dos primeiros papéis moedas emitidos em solo brasileiro.   

Em toda a história do dinheiro no Brasil, os réis foram a moeda mais duradoura: só foi substituído em 1942 pelo cruzeiro. Contando com o real, foram ao todo nove moedas.    

Para saber mais sobre a história do dinheiro no Brasil, leia: Moedas do Brasil: a história do nosso dinheiro desde 1500.

Referências

AUGUSTO, André Guimarães. "As origens do dinheiro: abordagem ontogenética e abordagem histórico-estrutural". Revista de Economia, v. 37, n. 3 (ano 35), p. 7-21, set./dez. 2011. Editora UFPR. 

VIEIRA, João Pedro. A História do Dinheiro. Lisboa: Academia das Ciências de Lisboa, 2017. 

"A History of Printed Money". International Bank Note Society. Disponível em: theibns.org. 

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