Teorias da conspiração que sacodem o mundo político


O homem não pisou na Lua. Foi Georg W. Bush quem planejou os ataques às Torres Gêmeas. Osama Bin Laden está vivo. A Terra é plana. E o mundo, acreditem, é dominado por répteis que assumiram forma humana.

Você deve conhecer outras teorias da conspiração, tão ou mais mirabolantes do que essas. Apesar de abordarem temas diversos, todas elas têm algo em comum: a tentativa de explicar determinado acontecimento contrariando as explicações mais comuns ou aceitáveis. Teorias da conspiração tendem a ver um fenômeno como resultado de forças poderosas e misteriosas, ainda que provas documentais ou teorias científicas digam o contrário.

Hoje em dia, com a internet, essas teses malucas ganharam um impulso adicional. E o poder de afetar a nossa vida e os rumos da política, ao que tudo indica, aumentou.

As teorias da conspiração populares hoje em dia

Entre as várias teorias que afetam a percepção das pessoas sobre os acontecimentos políticos, há duas bem famosas: a dos reptilianos e a dos Illuminati.

Reptilianos

Reptilianos
Segundo a teoria, reptilianos podem ser reconhecidos por suas pupilas verticais.

Há quem acredite que o mundo é dominado por uma classe de répteis. Você leu bem: uma classe de répteis!

Estamos falando dos reptilianos, seres alienígenas que, para esconder a sua real identidade e passarem despercebidos na Terra, adotaram a forma humana. Mas os reptilianos não são quaisquer pessoas. Eles dominam o mundo. E isso já há algum tempo.

Sabe as pessoas mais poderosas, os presidentes, os grandes empresários, as celebridades mais famosas que influenciam a opinião pública? Na verdade, são todos lagartos. Fomos tolos até agora de acreditar que eles são seres humanos de carne e osso como nós.

Em 2013, uma empresa de pesquisa norte-americana, a Public Policy Polling, elaborou um questionário com perguntas no mínimo incomuns. O Pé-Grande existe? 14% dos entrevistados disseram que sim. Você acredita em alienígenas? 29% responderam afirmativamente.

Sobre os reptilianos, 4% disseram acreditar na sua existência. Não se trata de um número insignificante. Ao todo, 12,5 milhões de norte-americanos creem que há décadas uma classe alienígena de répteis, da qual Barack Obama e Bill Clinton fazem parte, controla o governo dos Estados Unidos.

As teorias sobre os reptilianos variam. Uma das mais correntes nos sites de teorias da conspiração é a de que esses seres teriam chegado à Terra há milhares de anos, vindos de uma constelação distante, provavelmente Orion, e assim que desembarcaram por aqui teriam dado início ao cruzamento com seres humanos por meio de manipulação genética.

Illuminati

Um dólar Illuminati
O "olho que tudo vê", impresso no verso da nota de 1 dólar, seria um símbolo Illuminati. Você acredita?

Diferentemente dos reptilianos, a Ordem dos Illuminati realmente existiu, mas isso foi há mais de 200 anos...

Fundada na Alemanha, no final do século XVIII, essa sociedade secreta era guiada pela missão de disseminar os ideais iluministas na sociedade. Os integrantes dessa organização eram liberais e acreditavam na razão como o princípio fundamental que deveria guiar as ações humanas.

Como os maçons, os Illuminati se reuniam em sessões secretas para discutir assuntos relacionados aos rumos da sociedade. Conforme a organização fosse crescendo, a ideia era obter poderes políticos. Porém, em 1785, aproximadamente 10 anos após sua fundação, devido a uma lei que proibia as sociedades secretas na Baviera, a ordem foi extinta. E o mito ficou.

Tem gente que acredita que os Illuminati nunca deixaram de existir e que hoje exercem enorme influência nas principais decisões políticas ao redor do mundo. Eles estariam por trás de eventos mundialmente importantes, como o 11 de Setembro. Políticos como George W. Bush ou Barack Obama (mais uma vez Obama!), segundo algumas versões da teoria, fariam parte dessa poderosa sociedade secreta. Até Beyoncé, acreditem, seria uma Illuminati!

E os sinais estariam espalhados por todo lado. O “o olho que tudo vê”, impresso no verso da nota de um dólar, por ser um símbolo supostamente Illuminati, seria uma das provas de que essa organização continua a todo vapor. O obelisco, a coruja e a pirâmide são outros dos seus símbolos.

Teorias da conspiração e eleições

Algumas teorias da conspiração andaram rondando processos eleitorais na história recente. Nesses casos, o objetivo de quem as criou parece muito claro: interferir no resultado das urnas. Houve situações, inclusive, em que as próprias campanhas incentivaram a disseminação de informações falsas a respeito de candidatos adversários. Estamos falando de um dos temas mais comentados e debatidos na era das redes sociais: as fake news.

EUA: Hillary é líder de rede de prostituição infantil?

Hillary Clinton

Deu o que falar o caso conhecido como Pizzagate, em referência ao famoso escândalo político que levou à renúncia do ex-presidente norte-americano Richard Nixon. O boato, criado por não se sabe quem, dizia que Hillary Clinton, então candidata democrata à presidência dos Estados Unidos, comandava uma rede de prostituição infantil cuja sede funcionava numa pizzaria de fachada na cidade de Washington.

O caso viralizou e muitos eleitores acreditaram na teoria. "Muitas vezes, o caso é que estamos construindo nossas crenças de maneira que sustentem o que queremos que seja verdade", disse à BBC News o cientista político norte-americano Larry Bartels. Pessoas envolvidas chegaram a ser ameaçadas de morte, incluindo o dono da pizzaria.

Apesar da teoria ter sido desmentida por jornais e sites de checagem de fatos, o estrago provocado na campanha da candidata democrata era irreversível. De acordo com pesquisa da Public Policy Polling realizada imediatamente após as eleições de 2016, 9% disseram acreditar que Clinton está ligada à rede de prostituição infantil e 19% responderam não ter certeza.

Quer dizer então que o Obama não é americano?

Barack Obama

Caso essa teoria estivesse correta, Obama não poderia ter sido presidente dos Estados Unidos, já que as leis eleitorais do país proíbem a candidatura de estrangeiros à presidência.

Porém, tudo não passa de teoria da conspiração. Mais uma que viralizou e acabou fazendo a cabeça de muita gente. A fake news surgiu na campanha de 2008 e foi disseminada por eleitores e candidatos republicanos (adversários de Obama). Donald Trump, na época apenas empresário e potencial candidato em 2012, foi um dos maiores divulgadores da mentira, que não surtiu o efeito esperado. Obama foi eleito e assumiu em 2009.

Em 2011, a fim de afastar quaisquer dúvidas em relação à sua nacionalidade, o então presidente Obama divulgou sua certidão de nascimento, comprovando sua origem norte-americana. Nasceu no estado do Havaí, em 4 de agosto de 1961.

Mas a teoria ressurgiu com força na campanha de 2016. E mais uma vez foi Trump quem levantou a bola. Em entrevista ao jornal The Washington Post, o candidato republicano não quis admitir diante do repórter que Obama é americano. A candidata adversária Hillary Clinton veio a público exigir retratação. Rapidamente o caso ganhou repercussão internacional. Pressionado, no dia seguinte o então candidato Trump voltou atrás e reconheceu o óbvio: sim, Obama é americano.

Brasil: marxismo cultural e URSAL

No Brasil, à direta e à esquerda, são tantas as teorias da conspiração que seria difícil enumerar todas. Elas fervilharam nas eleições de 2018 e foram impulsionadas principalmente pelo aplicativo WhatsApp.

Horkheimer e Adorno
Na origem do marxismo cultural estariam Max Horkheimer (esquerda) e Theodor Adorno (direita).

À direita, bombam teorias conspiratórias de que grupos organizados de esquerda pretendem há décadas impor uma agenda cultural global cujo objetivo é destruir os pilares da cultura ocidental. A família tradicional é uma das instituições que estariam na mira do complô esquerdista, chamado de marxismo cultural.

Esse movimento seria inspirado nas ideias da Escola de Frankfurt, grupo de pesquisadores alemães que existiu na primeira metade do século XX. Entre outras coisas, esses pesquisadores marxistas produziram uma teoria que critica a chamada indústria cultural e seu poder de manter as pessoas controladas e alheias aos problemas da realidade.

De acordo com os teóricos da conspiração, grupos de esquerda se utilizam dessa base teórica para tentar controlar a mídia, as escolas, as universidades, as empresas e, claro, a política. Deve-se suspeitar de professores e jornalistas. Todos eles estão comprometidos com o avanço do marxismo em todo o mundo.

O famoso “kit gay” é um exemplo de fake news que pertence ao universo dos que creem no marxismo cultural e prezam pela conservação dos valores tradicionais. Apesar de ter sido desmentida por sites de checagem de notícias, essa teoria foi usada pela campanha do então candidato à presidência Jair Bolsonaro (PSL).

URSAL
URSAL gerou memes e apropriações debochadas por parte da esquerda nas eleições de 2018.

Outra teoria da conspiração disseminada pela extrema-direita brasileira é a URSAL (União das Repúblicas Socialistas da América Latina). Segundo os adeptos da teoria, um movimento conspiratório coordenado por lideranças da esquerda latino-americana pretende implantar o comunismo em todo o continente, numa espécie de União Soviética latino-americana.

A teoria se tornou famosa durante as eleições de 2018. O candidato Cabo Daciolo (PATRI), em debate televisivo, questionou o candidato Ciro Gomes (PDT) sobre a URSAL, insinuando ser este um de seus idealizadores. Na mesma hora, o assunto dominou as redes sociais e deu origem a inúmeros memes.

Bolsonaro e a “fakeada”

Bolsonaro atentado
O momento em que Jair Bolsonaro é esfaqueado por Adélio Bispo durante ato de campanha.

Tem gente que até hoje duvida da veracidade do atentado sofrido por Jair Bolsonaro. Segundo os teóricos da conspiração, tudo não passou de uma encenação motivada por interesses eleitorais. Há até um vídeo com duração de quase uma hora que tenta comprovar, com base em imagens de celular e depoimentos de pessoas envolvidas no caso, que a facada na verdade foi uma “fakeada”, arquitetada pela campanha de Bolsonaro para transformá-lo em vítima e prejudicar a esquerda. Será?

No dia 6 de setembro de 2018, o então candidato à presidência Jair Bolsonaro, fazendo campanha de rua na cidade mineira de Juiz de Fora, foi brutalmente esfaqueado na região do abdômen. A notícia rapidamente ganhou as manchetes de jornais do Brasil e do mundo. Afinal, o líder das pesquisas de intenção de voto tinha sido hospitalizado às pressas e corria risco de vida.

Bolsonaro não morreu, venceu as eleições e a teoria de que a facada não passou de uma armação ganhou força na internet. Seus defensores dizem que o esquema foi grande: envolveu cabos eleitorais, policiais, seguranças, médicos e profissionais da imprensa. Segundo uma das versões, Bolsonaro já sofria de câncer e teria de passar por intervenção cirúrgica de qualquer maneira. Isso explicaria as duas cirurgias e os 23 dias de internação. Os médicos? Todos fariam parte da conspiração. Até o diretor do hospital estaria envolvido na trama.

Inquérito da Polícia Federal diz que o agressor, Adélio Bispo de Oliveira, preso em flagrante, agiu sozinho no local do crime e por motivações políticas. Mas os que acreditam em conspiração vão dizer que os policiais também estão envolvidos no esquema.

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