Entenda por que a gente sonha e por que sonhar é fundamental para a vida


Dra. Juliana Guimarães
Revisão científica por Dra. Juliana Guimarães • Doutora em Saúde Pública
Escrito por Carlos Neto

Não há estudos conclusivos sobre a natureza dos sonhos, seu significado e as razões pelas quais sonhamos. O que existem são teorias, que há anos alimentam uma discussão que parece não ter fim.

Por que sonhamos? O que diz a psicanálise

Freud explica

Freud
Para Sigmund Freud, o "pai da psicanálise", o sonho é a principal via de conhecimento do inconsciente.

Sendo ou não uma ciência, o fato é que Sigmund Freud (1856-1939), fundador da psicanálise, criou uma das mais influentes teorias do sonho de que se tem conhecimento. Resumidamente, a psicanálise estuda o inconsciente, que são os conteúdos dos quais as pessoas não têm consciência.

Em outras palavras: há uma parte importante de nós mesmos que ignoramos. Um "outro eu" que age, pensa, fala e que secretamente pode nos dominar.

O inconsciente é formado desde os primeiros anos de vida de uma pessoa. Seu conteúdo é composto, basicamente, por impulsos e desejos recalcados (reprimidos). Esses desejos são reprimidos desde que a criança começa a ser educada de acordo com as regras da comunidade em que nasceu. A essas proibições Freud dá o nome de superego.

Assim, para vivermos em comunidade, reprimimos desejos, que ficam escondidos dentro de nós mesmos. A censura existe para impedir que os desejos surjam na consciência, ameaçando as regras sociais.

Segundo Freud, os sonhos são a principal via de acesso ao inconsciente. Assim, durante um processo terapêutico, os sonhos têm enorme importância, já que eles dizem muito sobre esse lado oculto de nós mesmos.

Para Freud, o sonho está longe de ser algo insignificante. Pelo contrário: é impossível que uma pessoa se conheça e enfrente seus problemas sem entrar em contato com aquilo que ela esconde de si mesma, e que se manifesta nos sonhos. Eles são a expressão disfarçada do inconsciente. São a tentativa de ultrapassagem da censura. São a realização disfarçada dos desejos reprimidos.

O que diz Jung

Freud e Jung
Freud é o da esquerda e Jung o da direita, na primeira fila (foto tirada em frente à Universidade Clark, nos EUA.

Discípulo de Freud, Carl Gustav Jung (1975-1961) entendia os sonhos como compensações da vida no estado de vigília. Mas o que seria uma compensação?

Compensação pressupõe que alguma coisa está faltando e precisa ser preenchida. Ou então que é preciso que se restabeleça algum tipo de equilíbrio.

A famosa psiquiatra brasileira Nise da Silveira (1905-1999), no seu estudo sobre a vida e o pensamento de Jung, define essa função compensadora do sonho como uma autorregulação. Sempre que surgem desequilíbrios psíquicos, o sonho entra em cena para restabelecer o equilíbrio. Trata-se, assim, de uma reação.

Nise da Silveira dá exemplos. Vamos supor uma pessoa que depende muito dos seus pais e valoriza-os de forma excessiva, a ponto de comprometer o desenvolvimento de sua própria personalidade. A tendência é que nos sonhos dessa pessoa seus pais apareçam de forma negativa ou desfavorável.

Outro exemplo: um indivíduo que ambiciona posições profissionais que estão muito além de suas qualificações tende a ter sonhos em que aparece de uma forma diminuída.

Jung também chama a atenção para o caráter anunciador ou antecipatório dos sonhos. Claro que não estamos falando de profecias, embora muita gente acredite no caráter profético dos sonhos. Jung se refere para o fato dos sonhos, enquanto manifestações inconscientes, possuírem dados, informações, que de certo modo antecipam estados psíquicos futuros.

Assim, um sonho pode "avisar" uma pessoa que ela está prestes a ter uma crise. Esses "avisos", ou prognósticos, já estão no inconsciente antes da crise emergir.

Segundo Jung, os sonhos também têm poder diagnóstico, podendo ajudar a confirmar suspeitas de doenças. Há um caso famoso, citado por Nise da Silveira, em que Jung diagnosticou uma doença neurológica de uma paciente através da interpretação de um sonho em que um cavalo cruzava um apartamento a toda velocidade e se atirava pela janela, morrendo espatifado no chão.

Esse sonho, que se repetiu várias vezes, representava a autodestruição. A paciente morreu pouco tempo depois.

Significados de alguns sonhos

Os significados dos sonhos tendem a variar de pessoa para pessoa. Para se interpretar um determinado sonho, é preciso levar em consideração informações específicas da vida da pessoa sonhadora: sua história de vida, suas relações familiares, seus traumas. Assim, os sonhos têm significados particulares.

Por isso, pelo menos do ponto de vista da psicanálise, não faz muito sentido falar em significados universais.

Ainda assim, é possível apontar possíveis caminhos de interpretação de alguns sonhos bastante comuns à maioria das pessoas.

1 - Sonhar com o (a) ex. De acordo com o psicoterapeuta Carder Stout, entrevistado pelo HuffPost Lifestyle, essa pessoa, que um dia ocupou um lugar privilegiado em sua vida, certamente representa algo seu. Assim, a pergunta que se deve fazer quando se sonha com essa pessoa, seja ela um ex-marido ou ex-namorada, é: o que essa pessoa representa em mim? Na verdade, o sonho diz respeito mais a você do que à pessoa sonhada.

2 - Pesadelos repetidos. Esses sonhos, formados por traumas inconscientes, normalmente representam alertas, avisos, de que algo dentro de você precisa ser trabalhado. Não é à toa que alguns sonhos se repetem. Nas palavras de Stout, é como se a nossa mente nos dissesse: "Por favor, preste atenção em mim. Por favor, olhe pra mim".

3 - Sonhar com pessoas desconhecidas. Segundo Jung, pessoas desconhecidas costumam representar aspectos de nós mesmos. Mas aspectos que geralmente não admitimos em nós mesmos. Nise da Silveira dá um exemplo: uma mulher desconhecida no sonho de um homem pode representar o lado feminino do sonhador. Diz Jung: "todas as figuras do sonho são aspectos personificados da personalidade do sonhador".

Por que sonhar é importante? O que diz a ciência

Criança dormindo
"Criança dormindo", do pintor italiano Bernardo Strozzi (1581-1644).

Efeitos da privação dos sonhos em seres humanos

Seja como realizador de desejos, como diz Freud, seja como compensador da vida, como diz Jung, já deu para notar o quão importante é o sonho, não é mesmo? Vejamos agora o que dizem alguns cientistas que tentaram compreender o enigma dos sonhos através de experiências. Para eles, uma coisa é certa: o sonho é universal e indispensável à vida, mais indispensável até que o sono. Dá pra acreditar?

Em 1959, os pesquisadores norte-americanos William Dement (1928) e Nathaniel Kleitman (1895-1999), da Universidade de Chicago, fizeram uma experiência para tentar descobrir os efeitos da privação dos sonhos em seres humanos. O experimento consistia em impedir que os voluntários sonhassem. Sempre que a pessoa começava a sonhar, ela era despertada.

E quais foram os resultados? Conforme aumentava o número de dias em que essas pessoas eram proibidas de sonhar, maior a tendência ao nervosismo, estresse, angústia e outros tipos de perturbações psicológicas. A fim de evitar problemas de saúde, foi preciso interromper os experimentos com algumas pessoas.

Como saber quando uma pessoa começa a sonhar?

Mulher dormindo

Num relatório publicado em 1953, Kleitman e seu assistente Eugene Aserinsky (1921-1998) haviam confirmado a hipótese, formulada pela primeira vez no fim do século XIX, de que movimentos produzidos pelos globos oculares têm relação com os sonhos.

Aserinsky já havia descoberto essa relação estudando o sono de bebês recém-nascidos. O que a dupla de cientistas fez foi estender o experimento para adultos.

Utilizando-se do método da eletroencefalografia, que permite monitorar a atividade elétrica do cérebro, constatou-se a existência de uma relação entre os movimentos oculares rápidos (MOR), as correntes elétricas do cérebro, o ritmo respiratório e os movimentos do corpo da pessoa adormecida.

Os experimentos de Kleitman e Aserinsky constataram que toda vez que se detectavam os MORs em pessoas adormecidas modificavam-se as ondas elétricas cerebrais, além de aumentar a pulsação e intensificar a respiração.

Quando isso acontecia, Kleitman e Aserinsky acordavam a pessoa e lhe perguntavam se ela tinha sonhado. Para que se pudesse comparar, também eram acordadas pessoas que não estavam passando por esse período do sono em que aconteciam os movimentos oculares.

E o que aconteceu? Pessoas acordadas no período dos MORs quase sempre se lembravam dos sonhos. As outras pessoas, não.

Conclusão: os períodos do sono em que ocorrem os MORs são justamente os períodos em que a pessoa sonha. São as chamadas fases do sono onírico. A outra fase, em que não ocorrem os sonhos, é chamada de sono profundo.

Enquanto dormimos, vivemos ciclos, ou fases, que vão do sono leve ao profundo, e o normal é que uma pessoa adulta passe em média por três períodos de MORs de aproximadamente 30 minutos durante uma noite de sono. Durante esses períodos, a atividade do cérebro se intensifica a ponto de ser igual ou até mesmo maior do que a atividade do cérebro quando se está acordado.

É por isso que os cientistas costumam chamar esse período de sono paradoxal, pois apesar da pessoa estar dormindo, suas atividades cerebrais são parecidas com as de uma pessoa que está acordada. Ou seja, enquanto sonhamos nosso cérebro está trabalhando a todo vapor.

O dia em que cientistas mataram gatinhos porque os fizeram parar de sonhar

Cérebro

Até os gatos sonham. E para eles o sonho é tão importante quanto para nós, seres humanos. O neurocientista francês Michel Jouvet (1925-2017) pôde verificar, a partir de experiências, os efeitos nocivos da privação do sonho em gatos. E como é que esse cientista fazia para impedir que os gatos sonhassem?

É triste pensar o que o homem é capaz de fazer para conseguir o que quer. Por mais que os objetivos muitas vezes sejam nobres, os meios empregados para alcançá-los nem sempre são os melhores. Infelizmente há muita crueldade por trás de alguns avanços da ciência.

Jouvet e sua equipe descobriram a região do cérebro responsável pelos sonhos. Eles fizeram isso por meio de testes que consistiam em neutralizar cirurgicamente regiões dos cérebros dos gatos. Neutralizaram uma parte de cada vez, a fim de descobrir se o funcionamento de alguma delas estaria associado aos sonhos.

Só quando foi neutralizada a formação reticular (uma parte do tronco encefálico), não houve mais sonhos. Ou seja, não houve mais alterações nas atividades cerebrais nem movimentações rápidas nos globos oculares. Os gatos dormiam, mas não sonhavam, pois a formação reticular estava inativa.

Após três meses sem sonhos, os gatos submetidos à experiência morreram. A única causa encontrada para a morte foi a privação dos sonhos.

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Dra. Juliana Guimarães
Revisão científica por Dra. Juliana Guimarães
Doutora em Saúde Pública pela Escola Nacional de Saúde Pública e pós-Doutorada em Saúde Coletiva pela Universidade de Fortaleza. Graduação em Enfermagem pela Universidade Federal do Ceará. COREN 109692