Gosta de ficar sozinho? Entenda por que você não é uma pessoa antissocial.


Dra. Juliana Guimarães
Revisão científica por Dra. Juliana Guimarães • Doutora em Saúde Pública
Escrito por Carlos Neto

Há quem pense que gostar de ficar sozinho é sinônimo de ser antissocial. A pessoa que prefere ficar em casa para ver um filme a ir à balada com os amigos, aquela que curte ler um livro quando está na praia ou a que adora momentos solitários para pensar em si mesma e na vida: todas essas pessoas seriam antissociais.

Nada disso. Para a psiquiatria, uma pessoa antissocial é aquela que apresenta uma tendência constante a se comportar socialmente de forma perturbadora e desagradável, podendo em alguns casos infringir a lei. O antissocial, ao contrário do que se pensa, não é quem opta ficar sozinho em alguns momentos do seu dia.

O comportamento antissocial está associado a transtornos psiquiátricos, como o transtorno da conduta e o transtorno desafiador de oposição. O diagnóstico é feito por um psiquiatra, que também é o responsável por conduzir o tratamento.

Solidão: malefícios e benefícios

As pessoas costumam se culpar por preferirem muitas vezes ficar sozinhas a ir a um jantar de família ou a um barzinho com os amigos, como se houvesse alguma coisa de errado, de "anormal", em curtir a solidão.

Mas uma coisa é tirar um tempinho para si mesmo de vez em quando, curtir uma solidão para pensar na vida, estudar ou simplesmente não fazer nada. Outra bem diferente é sentir-se só o tempo inteiro.

Quando o isolamento social se torna uma condição de vida, pode trazer danos à saúde. É o que diz a professora Tatiana Mourão, do Departamento de Saúde Mental da Faculdade de Medicina da UFMG. Em entrevista ao site dessa faculdade, a professora diz que a solidão em alguns casos está associada à depressão e à sensação de desesperança em relação à vida e pode provocar variações no sistema imunológico.

Solidão

Em 2011, o psicólogo John T. Cacioppo, na época diretor do Centro de Neurociência Cognitiva e Social da Universidade de Chicago, disse ao jornal O Globo que a solidão pode ser tão ou mais prejudicial à saúde quanto o tabagismo ou a obesidade.

"A solidão está relacionada ao mau funcionamento do sistema imunológico, ao aumento da pressão sanguínea, à elevação dos níveis de hormônios do estresse, a um sono ruim, ao alcoolismo, ao uso de drogas e mesmo a alguns tipos de demência em pessoas mais velhas", disse Cacioppo.

Mas há estudos que dizem que o isolamento, quando é voluntário e não está associado a quadros de depressão, pode trazer benefícios.

Gregory Feist, professor de psicologia da Universidade Estadual de San Jose, na Califórnia, é um dos que defendem que a opção de ficar só favorece a criatividade e a produtividade. Ao lado do psicólogo húngaro Mihaly Csikszentmihalyi, Fiest estudou a vida de pessoas criativas de várias áreas e profissões e verificou que a introversão era um traço comum entre elas.

Comportamento antissocial

O comportamento antissocial é diferente da insociabilidade ou isolamento social. Vejamos em que consiste o comportamento antissocial em crianças e adultos.

Crianças e adolescentes: o transtorno da conduta

Criança antissocial

Segundo os pesquisadores David R. Offord e Isabel Bordin, especialistas em psiquiatria infantil, uma criança antissocial é aquela cujo comportamento desagrada as outras pessoas com quem convive, seja em casa ou na escola, e desrespeita constantemente as regras que regem o convívio em grupo.

Desobediência persistente, tendência a provocar brigas, desrespeito a pais e professores e uso da violência para lidar com problemas do dia a dia são algumas das características comportamentais da criança com o transtorno da conduta.

De acordo com o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM), há comportamentos antissociais típicos de uma criança ou jovem (menor de 18 anos) com transtorno da conduta. O DSM orienta profissionais da área da saúde mental no diagnóstico de transtornos mentais. Vejamos alguns sintomas do transtorno da conduta:

  • intimidar ou ameaçar os outros;
  • brigar com frequência e recorrer a armas, como paus, pedras e cacos de vidro;
  • cometer delitos ou crimes, como roubos e furtos;
  • praticar atos de crueldade com pessoas e animais;
  • praticar atividades perigosas, como destruições ou incêndios.

A persistência desse tipo de comportamento e a falta de constrangimento ou mesmo arrependimento com os próprios atos são características da pessoa antissocial. Esses sintomas geralmente surgem na infância e podem permanecer na fase adulta.

O adulto e o transtorno de personalidade antissocial

Para David R. Offord e Isabel Bordin, determinadas circunstâncias favorecem a persistência do comportamento antissocial na fase adulta. Assim, dependendo da gravidade do transtorno da conduta em crianças e adolescentes, é possível dizer se há propensão maior ou menor à continuação do comportamento antissocial após os 18 anos. Eis algumas das circunstâncias:

  • início precoce do aparecimento dos sintomas;
  • existência conjunta de diferentes sintomas na infância, em especial os comportamentos violentos;
  • frequência com que ocorrem os comportamentos antissociais;
  • variedade dos espaços em que esses comportamentos ocorrem (se podem ser verificados na escola e em casa);
  • associação do transtorno da conduta com o transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH).

De acordo com o Manual MSD de Diagnóstico e Terapia, a pessoa antissocial tende a desprezar regras e os direitos das outras pessoas. Faz mais sentido pensar no antissocial como aquele que que se opõe à sociedade (o prefixo anti significa justamente oposição).

O adulto com transtorno de personalidade antissocial pode apresentar os seguintes sintomas:

  • descaso pelas outras pessoas;
  • prática de atos ilícitos, como roubos e fraudes, ou atos imprudentes para a obtenção de vantagens pessoais;
  • indiferença em relação às consequências de seus atos na vida das outras pessoas (em outras palavras: ausência de remorso);
  • irresponsabilidade profissional e financeira;
  • prática de violência doméstica;
  • impulsividade ou adoção de comportamentos arriscados;
  • tentativa de justificar racionalmente seu comportamento antissocial.

As pessoas geralmente confundem o transtorno de personalidade antissocial com a psicopatia. Realmente os dois transtornos são bem parecidos e coincidem em todos os sintomas listados acima, mas o psicopata apresenta características peculiares, como a vaidade excessiva e a arrogância.

Causas do comportamento antissocial

Família

Impossível compreender o comportamento antissocial sem olhar para as relações familiares. Segundo o psicanalista inglês Donald Winnicott (1896-1971), uma das causas do comportamento antissocial em crianças é a privação afetiva, ou seja, a insuficiência ou a falta de cuidados básicos, de carinho e segurança que caracterizam a relação dos pais com o filho. A tendência antissocial representa a busca por alguma coisa perdida mas que um dia existiu. No caso, o próprio afeto.

David R. Offord e Isabel Bordin chamam a atenção para alguns aspectos que costumam se relacionar com o aparecimento de comportamentos antissociais na infância:

  • inadequação ou negligência nos cuidados paternos e maternos;
  • ambiente familiar marcado por constantes brigas conjugais;
  • violência doméstica;
  • pais antissociais.

Além dos chamados fatores ambientais, alguns pesquisadores defendem que a genética é um dos fatores que podem contribuir para o surgimento do comportamento antissocial.

Tratamentos

No caso de crianças com transtorno da conduta, recomenda-se um tratamento que leve em consideração os ambientes escolar e familiar. Existem muitos tipos de tratamento para crianças e jovens diagnosticados, que vão desde oficinas de artes plásticas até os psicofármacos. Outros recursos utilizados são o treinamento de professores em técnicas comportamentais e psicoterapia individual e familiar.

É consenso que quanto antes for feito o diagnóstico e quanto mais cedo providências forem tomadas, melhores são os resultados alcançados.

Consta no Manual MSD que não há evidências de que um tratamento específico tenha eficácias de longo prazo no caso de pacientes adultos com transtorno de personalidade antissocial. Assim, o objetivo do tratamento passa a ser sobretudo evitar problemas com a lei no curto prazo. Os tratamentos existentes são a psicoterapia, estabilizadores de humor e antidepressivos.

Leia também: Aprenda como funciona a mente dos psicopatas e como identificá-los

Dra. Juliana Guimarães
Revisão científica por Dra. Juliana Guimarães
Doutora em Saúde Pública pela Escola Nacional de Saúde Pública e pós-Doutorada em Saúde Coletiva pela Universidade de Fortaleza. Graduação em Enfermagem pela Universidade Federal do Ceará. COREN 109692