Como funcionam as pílulas da inteligência e quais suas consequências?


É cada vez maior a procura das pessoas por suplementos que alteram o cognitivo, em busca de se tornarem mais inteligentes, seja por querer melhorar nos estudos, compreender conceitos difíceis ou desenvolver uma memória melhor. E já existem suplementos cerebrais que dizem poder ajudá-lo.

Os suplementos nootrópicos funcionam em um nível fundamental, aumentando algumas das funções cognitivas básicas que ocorrem em seu cérebro milhões de vezes ao dia.

Certos estimulantes cerebrais podem realmente aumentar o número de neurônios e sinapses em seu cérebro, enquanto outros melhoram a comunicação entre esses neurônios. O resultado é um melhor desempenho mental e um aumento no seu poder intelectual.

Tipos de inteligência

Existem diferentes tipos de inteligência, e o resultado do suplemento irá variar de acordo com o tipo que estamos observando. Em termos gerais, podemos distinguir entre Inteligência cristalizada e Inteligência fluida.

Inteligência cristalizada é o quanto alguém sabe, é o reflexo do conhecimento e da experiência adquiridos ao longo da vida. Podemos relacionar a inteligência cristalizada principalmente com nosso volume de memória de longo prazo.

Inteligência fluida relaciona-se mais com o que você pode fazer de forma cognitiva. É um reflexo da sua capacidade de aprender, raciocinar, discernir padrões e resolver problemas.

É como se ela fosse a responsável por utilizar a inteligência na prática, encontrando soluções para os problemas diários.

Como funcionam as pílulas da inteligência?

Drogas da inteligência podem abordar fatores relacionados à inteligência cristalizada e fluida, mas de maneiras diferentes.

Esses suplementos podem facilitar um melhor armazenamento de memória a longo prazo, da mesma forma que um suplemento de proteína pode potencializar o crescimento muscular. 

Ou seja, os nootrópicos para a inteligência cristalizada funcionarão melhor se você exercitar sua memória, envolvendo sua mente, lendo coisas novas ou buscando novas experiências.

Quando se trata de inteligência fluida, esses suplementos são mais capazes de efetuar as mudanças por conta própria, aumentando sua capacidade de memória de trabalho e incentivando novas conexões em seu cérebro.

Um estudo de 2010 descobriu que a memória de curto prazo era mais relacionada com o sucesso acadêmico do que outras medidas tradicionais, como o QI. Além de ajudar a memorizar coisas recentes, ela tem a ver com sua capacidade de realizar cálculos mentais e processar informações.

Rejuvenescendo seu cérebro 

Seu cérebro consiste em uma rede de bilhões de neurônios interconectados que se comunicam entre si através de sinapses, e sua capacidade de aprender novas informações é chamada de plasticidade sináptica.

Essas conexões mudam constantemente, formando novas sinapses e eliminando as que não são usadas. Quanto mais elástico seu cérebro é, mais rápido os conexões e caminhos são formados.

Porém, essa elasticidade é mais comum em crianças, e por isso elas desenvolvem novas habilidades mais rapidamente.

Nos adultos, essas habilidades tornam-se mais difíceis à medida que o cérebro atinge o pico de desenvolvimento, perdendo essa elasticidade.

Agora já imaginou se um medicamento pudesse fazer com que nosso cérebro não perca essa capacidade à medida que envelhecemos? 

Pesquisadores descobriram uma pílula que ajuda os adultos a aprender novas habilidades tão rapidamente quanto as crianças. Isso porque ela aumenta alguns produtos químicos no cérebro, que são encontradas em altas concentrações no cérebro de crianças.

Dois dos neurotransmissores mais importantes para aprendizagem são a acetilcolina e o glutamato. O estímulo a esses sistemas podem contribuir para uma melhor capacidade de lembrar e aprender novas informações, além de facilitar a realização de processamento e cálculos.

O resultado é um cérebro mais elástico que pode formar novas conexões e manter conexões existentes com maior eficiência.

Pílulas da inteligência na prática

As chamadas pílulas da inteligência são uma febre em escolas e universidades dos Estados Unidos, e também vem se popularizando no Brasil. O problema é que a maioria das pílulas utilizadas têm outros propósitos, como curar desvios de atenção ou hiperatividade.

Essas drogas, quando utilizadas em pessoas saudáveis, agem como pílulas da concentração, permitindo que uma pessoa possa trabalhar dias sem descanso, e manter o foco ininterrupto.

Porém, alguns utilizadores dessas pílulas relatam que elas só funcionam como um potenciador cognitivo na medida em que você se dedica a realizar determinada tarefa. O seu cérebro estará super focado em uma atividade, que pode ser estudar por horas a fio, ou limpar seu quarto compulsivamente.

A neurologia cosmética

Anjan Chatterjee, um neurologista da Universidade da Pensilvânia, criou o termo "neurologia cosmética" para descrever a prática de usar drogas para fortalecer a cognição de pessoas saudáveis.

Apesar de Chatterjee se preocupar com a neurologia cosmética, ele acha que eventualmente ela se tornará tão aceitável quanto a cirurgia estética.

E a demanda para esses medicamentos existe: uma população em envelhecimento que não suporta a perda de memória, pais sobrecarregados mas que querem dar atenção aos seus filhos, alunos que desejam melhores notas sem ter que abrir mão de suas vidas sociais e funcionários buscando melhores cargos.

E afinal, qual empresa não gostaria de ter em seu quadro de funcionários pessoas que trabalhem super concentradas, por dias, sem perder a qualidade de trabalho?

A criação de um mercado

Novas drogas psiquiátricas têm uma maneira de criar mercados para si. Transtornos geralmente são amplamente diagnosticados após o aparecimento de determinadas drogas que podem alterar um conjunto de comportamentos.

Desta forma, drogas que prometem super concentração, tornaram "déficit de atenção" um nome familiar, assim como anúncios de antidepressivos ajudaram a definir a timidez como uma doença.

Se houver uma pílula que possa resolver a falta de foco de estudantes após horas sem dormir, ou solucionar problemas relacionados à meia idade, esses estados que são comuns à nossa natureza podem passar a ser vistos como síndromes.

Um exemplo é o do medicamento Provigil. Em 1998, a empresa farmacêutica que o fabrica recebeu a aprovação do governo norte-americano para comercializar a droga, mas apenas para casos de narcolepsia.

Porém, em 2002 a empresa foi repreendida pelo Departamento de Saúde dos Estados Unidos por divulgar a droga como remédio para cansaço, menor rendimento e outras supostas doenças, aumentando em milhões seu lucro em vendas por isso.

Efeitos colaterais das drogas da inteligência

Efeitos no funcionamento do corpo

Pílulas da inteligência podem causar nervosismo, dores de cabeça, insônia e diminuição do apetite, entre outros efeitos colaterais.

Além disso, um grande problema dessas pílulas é o caso da dependência. Algumas dessas drogas, que permitem que pessoas saudáveis permaneçam acordados por mais de 60 horas, elevam a dopamina no cérebro.

No site Erowid, onde pessoas relatam de forma anônima suas experiências com drogas legais e ilegais, alguns usuários do Modafinil descreveram uma dependência da droga, revelando ser até mais fácil deixar de usar cocaína do que ela.

Efeitos sociais

Outro fator a ser discutido é a necessidade do uso desse tipo de medicamento por pessoas saudáveis, e o impacto na sociedade.

O uso indiscriminado dessas pílulas pode gerar uma competitividade de níveis desumanos de rendimento, onde uma pessoa saudável deverá competir com alguém que usa medicamentos para trabalhar por dias sem descanso.

Isso pode fazer com que a pessoa queira se medicar também, criando um círculo vicioso onde quem não se encaixa nesses padrões de super rendimento seja excluído do mercado de trabalho. E essas ansiedades competitivas já podem ser percebidas. 

Uma coluna de conselhos da Wired, uma revista americana sobre tecnologia, apresentou a pergunta de um leitor preocupado com um funcionário em destaque na empresa, que estava usando Modafinil para trabalhar por muito mais horas, e fazendo com que o chefe percebesse os outros funcionários como não produtivos.

Pessoas menos criativas

Chatterjee questiona sobre o fato das drogas que aumentam o foco dos usuários poderem atenuar sua criatividade, afinal, várias descobertas da humanidade foram pensadas em momentos de descontração e devaneio.

A pesquisadora Martha Farah revela que os indivíduos que são mais capazes de se concentrar em uma coisa e filtrar as distrações tendem a ser menos criativos.

E é exatamente esse foco elevado que as chamadas pílulas da inteligência prometem.

A personalização do cérebro

Para o neurocientista Selfzer, usar estimuladores cerebrais é como poder personalizar seu cérebro, ou como alguns entusiastas chamam, “hackear a mente”.

Porém essa ideia de hackear a mente não é nova. Cientistas e outros intelectuais como Francis Bacon, Balzac, Sartre e Freud utilizavam medicamentos, drogas ou cafeína, com a esperança de se tornaram mais inteligentes e produtivos.

Parece que toda era tem sua própria droga, e as pílulas da inteligência são perfeitamente adequadas à alta concorrência da nossa sociedade, principalmente em uma época de grande relacionamento com tecnologias digitais e múltiplas informações que nos distraem a todo momento.

Em meio a esse ambiente, o uso dessas drogas está menos relacionado com nossa inteligencia e evolução em si, e mais em conseguir horas extras para terminar um trabalho da faculdade, ou manter dois empregos ao mesmo tempo.