Conheça a história de Anne Frank através de passagens de seu famoso diário


Anne Frank nasceu na cidade alemã de Frankfurt, em 12 de junho de 1929. Morreu com apenas 15 anos, em fevereiro de 1945, no campo de concentração de Bergen-Belsen, no norte da Alemanha.

Deixou um diário, escrito durante os dois anos em que permaneceu escondida da polícia nazista. O Diário de Anne Frank já foi traduzido para mais de 70 idiomas e é presença constante nas listas dos livros mais vendidos em todo o mundo.

Anne Frank escrevendo

Esconder-se era a única opção

Por serem judeus, Anne Frank e seus familiares sofreram todos os horrores do nazismo. Tiveram de fugir para a Holanda em 1933, logo após a ascensão de Hitler ao poder. Em Amsterdã, viveram anos de paz e liberdade, até que em maio de 1940 a Holanda é invadida pelo exército alemão. Devido às perseguições e à ameaça constante de serem deportados aos temidos “campos de trabalho”, são obrigados a se esconder.

Quando, há uns dias, estávamos passeando, meu pai me disse que teríamos de “mergulhar”. Disse que nos iria custar muito viver isolados do mundo.

5 de julho de 1942

“Mergulhar”: o mesmo que desaparecer voluntariamente. Assim, com somente 13 anos, o mundo de Anne reduziu-se a um pequeno espaço, nos fundos da empresa do pai. Era um anexo secreto composto por alguns cômodos e poucas janelas que a família Frank (Anne, o pai, a mãe e a irmã) teve de dividir com outras quatro pessoas. Ali, naquele espaço extremamente apertado, conviviam com o medo de serem descobertos.

Aflige-me a ideia de não se poder sair daqui e tenho medo de que nos descubram e nos fuzilem. É isto que pesa sobre mim de um modo horrível. Durante o dia não nos podemos mexer à vontade, não podemos pisar o chão com força e temos quase de cochichar em vez de falar, pois lá em baixo, no armazém, não nos devem ouvir.

11 de julho de 1942

De uma hora para outra, o confinamento tornou-se a única realidade para aquelas pessoas. E não se sabia até quando aquilo iria durar.

Sinto-me como um pássaro a quem cortaram as asas e que bate, na escuridão, contra as grades de sua gaiola estreita. Uma voz grita em mim:

– Quero sair. Sair daqui para fora! Tenho saudades do ar livre, quero poder rir à vontade!

Mas sei que esses gritos não têm resposta, e deito-me na cama para matar estas horas tão terrivelmente silenciosas e cheias de angústia.

29 de outubro de 1943

Anne driblava o dia a dia entediante lendo e escrevendo. Os livros, bem como alimentos e outros itens necessários, eram trazidos por quatro funcionários da empresa. Esses leais funcionários eram os responsáveis por manter a conexão vital entre o “anexo” e o mundo lá fora. Miep era uma delas:

A Miep é o nosso burro de carga, coitada! Quase todos os dias descobre uma hortaliça e a traz na sua saca amarrada à bicicleta. Também é ela quem cuida, todos os sábados, da troca dos livros, na biblioteca. Estamos sempre ansiosamente à espera do sábado, como criancinhas que esperam por um presente. As pessoas que estão em liberdade e levam uma vida normal não podem calcular o que significam os livros para gente isolada do mundo exterior. Ler, estudar e ouvir rádio... É este o nosso mundo!

11 de julho de 1943

O Diário: refúgio de Anne Frank

Diário de Anne Frank
O diário na Casa de Anne Frank, em Amsterdã.

Durante o confinamento, Anne dedicou-se principalmente à redação de um diário, escrito em forma de cartas endereçadas a uma amiga imaginária (ou personagem) chamada Kitty. Escrever à Kitty era o que a permitia respirar.

Quando escrevo, sinto um alívio, a minha dor desaparece, a coragem volta... Ao escrever sei esclarecer tudo – os meus pensamentos, os meus ideais, as minhas fantasias.

4 de abril de 1944

Experimento uma sensação singular ao escrever o meu diário. Não é só por nunca ter "escrito", suponho que, mais tarde, nem eu nem ninguém achará interesse nos desabafos de uma menina de 13 anos. Mas na realidade tudo isso não importa. Gosto de escrever e quero aliviar o meu coração de todos os pesos.

20 de junho de 1942

Uma guerra que parecia não ter fim

Mas o conforto encontrado na escrita era a todo instante ameaçado pelo mundo exterior. Vivia-se o auge da II Guerra Mundial.

Segunda Guerra Mundial
Destruição provocada pela guerra. Na foto, a cidade alemã de Dresden, em 1945.

Não sou capaz de me habituar às bombas e aos aviões. Tenho medo e quase sempre fujo para a cama do pai.

10 de março de 1943

Depois dos bombardeios, chegavam pelo rádio as notícias da destruição:

No domingo, o Norte de Amsterdã foi terrivelmente bombardeado. Dizem que as destruições são medonhas. Ruas inteiras estão transformadas em montões de entulho e ainda vão se passar muitos dias sem se encontrarem todos os cadáveres. Até agora contam-se duzentos mortos e inúmeros feridos. Os hospitais estão apinhados. Crianças vagueiam entre ruínas à procura dos pais.

19 de julho de 1943

E a perseguição aos judeus só aumentava. Primeiro, foram os regulamentos restritivos e a violação de liberdades individuais. Depois, as deportações em massa. Do “anexo”, Anne acompanhava o noticiário com muita preocupação.

Hoje só te posso dar notícias tristes e deprimentes. Os nossos amigos e conhecidos judeus são deportados em massa. A Gestapo [polícia secreta alemã] trata-os sem a menor consideração. Em vagões de gado leva-os para Westerbork, o campo para judeus. Westerbork deve ser um lugar horrível. Estão lá milhares de pessoas e nem há sequer lavatórios nem W.C. que, de longe, cheguem para todos. Conta-se que as pessoas dormem em barracas, homens, mulheres e crianças, todos misturados. Não podem fugir: quase todos se podem identificar pelas cabeças raspadas ou então pelo seu tipo judaico.

9 de outubro de 1942

Saber que há judeus sofrendo e morrendo do lado de fora enche Anne de dor. Sente-se impotente.

Os outros têm de sofrer e de morrer e eu não passo de uma espectadora; só posso pedir a Deus que não os deixe morrer e que me devolva os meus amigos.

27 de novembro de 1943

Apesar de sofrer todo o tipo de privação, o esconderijo ao menos a mantinha viva. Ao se lembrar de sua amiga Lies, que ficou do lado de fora, Anne enche-se de culpa.

Oh! Meu Deus, tenho aqui tudo o que necessito e ela foi arrastada para o destino mais duro que há! Tem sido pelo menos tão crente como eu, e só desejava o bem. Por que é que fui eleita para viver e ela para morrer? Qual é a diferença entre nós? Por que é que estamos tão longe uma da outra?

27 de novembro de 1943

O dia a dia no "anexo secreto"

Mas o diário de Anne também tem momentos de leveza. No dia 11 de novembro de 1943, por exemplo, ela escreve uma “Ode à minha caneta de tinta permanente” que tinha acabado de ser queimada por engano junto com o lixo. A ode começa assim:

A minha caneta foi para mim, sempre, uma coisa preciosa. Apreciava-a imensamente por ter um bico grosso e redondo, porque só escrevo bem com bicos assim. Ela viveu uma vida de caneta bem longa e interessante, que vou aqui descrever.

11 de novembro de 1943

Há também muitas páginas dedicadas ao romance de Anne com Peter, filho do casal van Daan. Anne sonha com ele. Pensa nele a todo instante. Espera ansiosamente pelo próximo encontro no quarto do sótão.

Bem sabes que te escrevo tudo com a máxima franqueza. Por isso vou ainda confessar-te que só vivo agora dos nossos encontros. Quem me dera saber se ele também me espera com a mesma ansiedade. Fico radiante quando sinto as suas tímidas tentativas de uma aproximação. Sei que ele gostaria tanto como eu de abrir, finalmente, o coração. Não adivinha que é precisamente a sua falta de jeito que me encanta.

6 de março de 1944

Anne Frank

O diário é repleto de acontecimentos que podem ser considerados mais triviais, como por exemplo a prática de descascar batatas ou os conflitos com Dussel, o dentista com quem Anne dividia quarto. Devido à convivência ininterrupta, era comum haver pequenas brigas entre os “mergulhados”. Muitas vezes a adolescente Anne sentia-se isolada e incompreendida.

Estou com muita raiva que nem podes fazer ideia. Mas não a posso dar a conhecer a ninguém. Gostaria de bater com os pés, sacudir a mãe e não sei o que mais. E isto por causa das palavras zangadas, dos olhares irônicos, das acusações que contra mim são lançadas todos os dias, como setas de um arco muito esticado. Gostaria de gritar-lhes, à mãe, à Margot, ao Dussel e aos van Daans: Deixem-me em paz!

30 de janeiro de 1943

Mas logo os conflitos cotidianos são engolidos pela realidade terrível da guerra. Os bombardeios constantes. Os aviões. O ruído das metralhadoras. Anne sabia que, caso sobrevivesse, o mundo que ela encontraria depois da guerra não seria mais o mesmo. Ela já não era mais a mesma.

Não consigo imaginar que o Mundo possa voltar a ser para nós o que era antes. Digo muitas vezes: “Depois da guerra”. Mas digo-o como se se tratasse de um castelo no ar e não de um tempo que se tornará, algum dia, para mim realidade. Quando penso na nossa vida em casa, na escola, com todas as alegrias e sofrimentos, em tudo o que era “antigamente”, tenho a sensação de não ter sido eu quem viveu essas coisas mas sim uma estranha, alguém totalmente diferente.

8 de novembro de 1943

O desfecho: futuro interrompido e um sonho realizado

Anne tinha sonhos, como toda garota de sua idade. Sonhava em ser jornalista e escritora. Também tinha planos para o seu diário, que pretendia transformar em livro, com o título O Anexo.

Quero vir a ser alguém. Não me agrada a vida que levam a mãe, a Sra. van Daan e todas essas mulheres que trabalham para, mais tarde, ninguém se lembrar delas. Além de um marido e de filhos, preciso de mais alguma coisa a que me possa dedicar! Quero continuar a viver depois da minha morte. E por isso estou tão grata a Deus que me deu a possibilidade de desenvolver o meu espírito e de poder escrever para exprimir o que em mim vive.

4 de abril de 1944

Mas apesar das esperanças com o avanço das tropas aliadas, o esconderijo é descoberto em 4 de agosto de 1944. Até hoje ninguém sabe dizer como a polícia soube da existência do "anexo". Mais um pouco e todos seriam salvos. A guerra já estava no fim.

Os oito ocupantes do “anexo” são imediatamente deportados a Auschwitz. Em novembro do mesmo ano, Anne e sua irmã Margot são transferidas para o campo de Bergen-Belsen. Com pouca comida e vivendo em condições miseráveis, ambas morrem em fevereiro de 1945, de febre tifoide.

Dias depois da polícia invadir o "anexo", o diário é encontrado por duas funcionárias da empresa, Miep e Elli. Era um caderninho de capa vermelha e branca misturado a papéis velhos. Foi o pai, Otto Frank, o único sobrevivente do "anexo", quem o publicou, em 1947, realizando o sonho da filha.

Hoje o "anexo secreto" dá lugar à Casa de Anne Frank, museu dedicado à memória daquela que escreveu um dos mais comoventes relatos antibélicos de toda a história.

Casa de Anne Frank
Fachada do prédio onde está instalada a Casa de Anne Frank, inaugurada em 1960.

[...] por que e para que é esta guerra? Por que é que os homens não podem viver em paz? Para que tantas destruições?

Estas perguntas são legítimas, mas até agora ninguém soube encontrar-lhes uma resposta satisfatória. Por que é que na Inglaterra se constroem aviões cada vez maiores, bombas cada vez mais pesadas e, ao mesmo tempo, se reconstroem filas de casas? Por que é que se gastam todos os dias milhões para a guerra, se não há dinheiro para a medicina, os artistas e os pobres? Por que é que há homens passando fome se, em outros continentes, apodrecem víveres? Por que é que os homens são tão insensatos?

3 de maio de 1944

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