A real história da peste negra: ratos não teriam espalhado a doença 


A temida peste negra que dizimou quase um terço da população europeia na Idade Média é uma infecção provocada pela bactéria Yersinia pestis. O seu auge aconteceu no século XIV, entre os anos de 1343 e 1353. 

Apesar de hoje ser considerada uma doença de baixa gravidade, ela tem alta relevância mundial. Afinal, a peste negra é a segunda principal causa de morte por origem infecciosa no mundo inteiro, só perdendo para a malária.

Yersinia pestis,
A bactéria Yersinia pestis
 

A verdadeira história da peste negra: ratos não teriam espalhado a doença 

Estudos recentes, publicados em 2018 por pesquisadores das universidades de Oslo, na Noruega, e de Ferrara, na Itália, afirmam que os ratos não foram os grandes responsáveis pela proliferação da peste negra, como se acreditava até então.

Estudos arqueológicos concluiram que o clima que se fazia na Idade Média não era exatamente propício para a reprodução descontrolada dos roedores. Nada que fosse suficiente para gerar uma epidemia, como aconteceu.

Através de simulações, os cientistas concluíram que o primeiro destes surtos foi viralizado por pulgas e piolhos presentes nas roupas e nos corpos dos humanos. É notório que os hábitos de higiene no século XIV não eram os mais confiáveis, o que colaborou para a proliferação da doença.  

Peste negra: a máscara que marcou o mundo

peste negra

O traje dos médicos que tratavam doentes de peste negra na Idade Média era muito peculiar e até hoje é reconhecido como uma das imagens mais sombrias que marcaram a epidemia. A chamada máscara da peste negra era semelhante a uma cabeça de ave com um enorme bico. Em seu interior era depositada uma composição de ervas - como cânfora e mirra - com o objetivo de combater o processo de contaminação.  

A vestimenta ficava completa com um chapéu característico, luvas, botas e um casaco de couro de cabra preto, integrado à máscara através de um capuz. Isso era feito para não deixar nenhuma parte do corpo do médico exposta à contaminação, que naquela época acreditava-se acontecer através do ar.

Como um cuidado extra, a indumentária era toda encerada com uma camada de gordura de animal, como uma maneira de impermeabilizar ainda mais as peças. Os médicos ainda usavam uma espécie de vara ou bengala, que era utilizada para auxiliar no exame aos doentes. 

A máscara da peste negra continuou popular após o fim da epidemia. Atualmente é comum, por exemplo, ver adaptações sendo usadas por foliões nas festividades do carnaval de Veneza. 

5 curiosidades sobre a peste negra

  1. Não se sabe exatamente como a epidemia chegou à Europa. Muitos acreditam que a bactéria causadora da peste tenha vindo da China em meados de 1348, trazida por navios mercantes. Há também quem defenda que ela tenha surgido após um ataque de mongóis à península da Crimeia, ao sul da Ucrânia.
     
  2. O povo acreditava que a praga era um castigo dos céus por causa dos pecados cometidos pelos homens, como heresia, blasfêmia e luxúria. 
     
  3. Judeus e muçulmanos foram perseguidos, atacados e queimados em muitas regiões da Europa, acusados de serem os propagadores da Praga.  
     
  4. Na tentativa de combater a doença, os médicos investiam em técnicas como sangramento, banhos de cebola e poções com vinagre e mel, que não eram nada eficazes no combate da peste.
     
  5. Para evitar o contato de padres com corpos infectados pela peste negra, no auge da epidemia, a igreja suspendeu temporariamente o sacramento da extrema unção aos mortos pela doença. 

Como a peste negra foi controlada na Europa

Segundo o médico brasileiro Drauzio Varella, estudos de DNA têm sido fundamentais para esclarecer essa questão. O especialista cita um estudo publicado em 2011 na revista Natura que mostra que a bactéria Yersinia pestis está extinta. O seu genoma, porém, é similar ao de bactérias que ainda existem nos dias de hoje. 

Segundo Varella, fatores comuns à época, como guerras e necessidades de grandes deslocamentos populacionais, teriam sido os principais motores para que as bactérias se adaptassem com mais facilidade a ambientes diversos. Por isso, as yersínias mais virulentas proliferaram com rapidez.

A partir do ano de 1351, porém, essa cepa considerada altamente virulenta replicou-se com menor frequência. Com o passar do tempo, os casos de peste negra foram provocando cada vez menos mortalidade. Até hoje há dúvidas se isso se deve ao fato de as pessoas terem ficado mais fortes e resistentes ou se as bactérias daquela época eram mais virulentas. 

O que se sabe é que as bactérias que seguiram se proliferando são semelhantes às que resistem atualmente de maneira mais branda, apesar de ainda causarem vítimas ao redor do mundo.  

Casos atuais de peste negra pelo mundo

Apesar da bactéria Yersinia pestis, que causou alta mortandade no passado, estar extinta, algumas variações dela ainda circulam atualmente. Para se ter uma ideia, a peste negra ainda é considerada uma doença endêmica em locais como Peru, Madagascar e Congo. 

Entre 2010 e 2015, a Organização Mundial de Saúde (OMS), registrou 3.248 casos da doença em todo o mundo, resultando em 584 óbitos. De acordo com o Centers for Disease Control and Prevention (Centros de Controle e Prevenção de Doenças), nos Estados Unidos, ainda são registrados, em média, sete casos da doença por ano, principalmente nas áreas rurais.

Mas as previsões são positivas. Ainda segundo a OMS, atualmente a doença é facilmente evitada. Além disso, quando detectada precocemente, pode ser tratada sem graves consequências para a saúde. No Brasil, o Ministério da Saúde registrou apenas um caso de peste em humanos entre os anos de 2000 e 2017.

Higiene: a chave para a prevenção da peste negra

A prevenção da peste negra é feita com base no controle de roedores e das pulgas, principalmente em locais de grande concentração populacional. Afinal, as bactérias responsáveis pela doençam infectam primariamente os ratos, camundongos e esquilos, principais hospedeiros das pulgas. 

Fomentar a importância da higiene corporal é fundamental no combate da doença. Afinal, a picada das pulgas diretamente em humanos pode causar a proliferação da bactéria.

Os sintomas e tratamento da peste negra

Os sintomas iniciais da peste negra costumam se manifestar após 3 a 7 dias de incubação da bactéria. O perigo está no fato de eles se confundem com os sintomas da gripe comum, como febre alta (acima de 39 graus), dores de cabeça e no corpo, náuseas, vômitos, calafrios, fraqueza e até mesmo convulsões. 

Existem três formas da peste negra se manifestar: a bubônica, a septicêmica e a pneumônica. Cada tipo se desenvolve de maneira diferente no organismo.

remédios

Atualmente, o tratamento para os diferentes tipos de peste negra é feito com o uso de medicamentos antibióticos. Como complemento, são usados fluidos intravenosos e oxigênio. 

As chances de sucesso giram em torno de 90% quando a medicação é ministrada na fase inicial da doença. Por isso, é fundamental procurar um médico assim que os primeiros sintomas aparecerem.

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