Alan Turing: pai da computação, herói de guerra e ícone gay


Luan Santos
Luan Santos
Jornalista e Crítico Cultural

Uma das mentes matemáticas mais brilhantes do Século XX, Alan Turing foi um matemático, criptoanalista e pioneiro da ciência da computação que ajudou a quebrar códigos de guerra nazistas contribuindo com a derrota de Hitler na Segunda Guerra Mundial.

Turing era gay e cometeu suicídio após ser condenado pelo governo britânico que proibia a homossexualidade naquela época.

Os primeiros anos do pai da computação

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Desde criança, Alan Turing já mostrava um talento precoce para matemática e ciências. Aos 15 anos, ele condensou a Teoria da Relatividade de Einstein e entregou para sua mãe. Sua genialidade foi reconhecida cedo e ele recebeu uma bolsa de estudos para ingressar na King’s College da renomada Universidade de Cambridge.

Na universidade, ele concebeu a ideia de uma máquina que pudesse ler símbolos. No artigo publicado em 1936 chamado de "Em Números Computáveis, com Uma Aplicação ao Problema de Decisão", Turing previu que um dia construiríamos uma máquina que pudesse computar qualquer problema humano, utilizando os números 0 e 1. Originalmente, o matemático descreveu uma pessoa realizando as operações e ela seria chamada de “o computador”.

A teorética “ Máquina de Turing” veio a se tornar um dos pilares para a ciência da computação e é uma das abstrações matemáticas mais influentes do Século XX. É por isso que ele é considerado por muitos como o inventor do computador.

Herói de Guerra: como Alan Turing quebrou o enigma nazista

Durante a Segunda Guerra Mundial, a Alemanha nazista utilizava uma máquina conhecida como Enigma. Ela era utilizada para passar mensagens criptografadas entre o governo de Hitler, seu exército, comandantes de guerra e demais estrategistas.

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Máquina Enigma, utilizada pelo governo nazista para enviar mensagens criptografadas

A máquina possuía o tamanho de uma máquina de escrever, mas também apresentava um segundo conjunto de letras que acendiam. Se você apertasse uma letra na máquina, uma letra diferente acenderia no conjunto superior, o que criava o código. Além disso, a máquina possuía três rotores que giravam quando uma letra era pressionada. Dessa forma, se você apertasse, por exemplo, duas vezes a mesma letra, letras diferentes seriam escritas. Diariamente, a máquina Enigma possuía 150 trilhões de combinações possíveis, o que tornava quase impossível decifrar suas mensagens.

Um dia após a Grã Bretanha declarar guerra contra a Alemanha, Turing escreveu uma carta se disponibilizando a trabalhar em Bletchley Park, instalação militar britânica destinada a decifrar os códigos nazistas.

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Réplica da máquina inventada por Alan Turing, "bombe", em Bletchley Park

Na instalação militar, Turing desenvolveu uma máquina chamada de “bombe”. Utilizando frases comuns já decifradas do Enigma, como relatórios de tempo, ele conseguiu decifrar mais e mais frases. No seu auge, os criptoanalistas de Bletchley Park estavam decodificando cerca de 84 mil comunicações a cada mês.

Calcula-se que o trabalho desenvolvido por Turing e pelos demais criptoanalistas em Bletchley Park diminuiu a Segunda Guerra Mundial em mais de 2 anos e salvou cerca de 14 milhões de vidas.

Ícone gay: condenado pelo país que ajudou a salvar

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Alan Turning à esqueda e Cristopher Morcom à direita. O jovem Christopher teve um grande impacto na vida de Alan

Até 1967, relacionamentos sexuais entre dois homens era ilegal na Inglaterra. Alan Turing era homossexual e vivia sua vida de forma discreta e pouco se sabe sobre seus relacionamentos amorosos. Ele chegou a ficar noivo por um período de tempo de uma colega de trabalho de Bletchley Park, a também matemática Joan Clarke.

É relatado que uma das grandes paixões de Turing foi um jovem que conheceu em Cambridge chamado Christopher Morcom. Chris também era fascinado por matemática, mas faleceu aos 17 anos de idade vítima de tuberculose bovina.

A morte de Christopher impulsionou Alan a continuar estudando matemática, no intuito de tentar entender se parte de Christopher poderia sobreviver sem seu corpo. Turing chegou a escrever um ensaio no qual teorizava como a alma poderia sobreviver após a morte através de um campo da mecânica quântica.

Por 30 anos, as contribuições de Alan Turing para o fim da Segunda Guerra Mundial foram mantidas em segredo. Ele continuou trabalhando nos anos seguintes desenvolvendo ainda mais estudos para a ciência da computação na Universidade de Manchester.

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Estátua de Alan Turing em Manchester. O matemático é representado segurando uma maçã e a sua frente encontra-se a bandeira LGBTQI em mosaico

Em 1952, Alan foi condenado por “atos homossexuais” pelo governo britânico. Desde 1885, a chamada “indecência grosseira” era uma ofensa criminal no Reino Unido e condenou milhares de pessoas à prisão apenas por serem gays. Turing aceitou a liberdade condicional ao invés do encarceramento, sob a condição de castração química (tratamento hormonal para diminuir sua líbido, que também causava diversos outros efeitos colaterais).

Em 1954, Turing cometeu suicídio comendo uma maçã que continha cianeto. Seu corpo foi encontrado por sua empregada, assim como a maçã mordida ao seu lado. Muitas pessoas acreditam que a logomarca da empresa de tecnologia Apple é uma homenagem ao grande inventor e pai da computação.

O tardio perdão à Alan Turing

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Nota de 50 Libras com o rosto de Alan Turing comecerá a cirular em 2021 no Reino Unido

Apenas 55 anos após a sua morte, em setembro de 2009, o governo britânico se desculpou publicamente à Alan Turing pela forma com o tratou. No entanto, ele não obteve um “perdão oficial” naquele ano.

Em 2012, muitas pessoas influentes ao redor do mundo, incluindo o físico Stephen Hawking, pressionaram o governo pelo perdão oficial à Alan. Em 2013, a Rainha Elizabeth II, concedeu à Alan Turing o “perdão real”.

O governo britânico anunciou em junho de 2019 que o rosto de Alan Turing estará nas notas de 50 Libras a partir de 2021 com uma frase proferida pelo matemático: "Isso é apenas uma antecipação do que está por vir, e apenas a sombra do que vai ser.”

Filme sobre Alan Turing: "O Jogo da Imitação", ao que se refere o título?

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Benedict Cumberbatch como Alan Turing em "O Jogo da Imitação" (2014)

O filme de 2014, “O Jogo da Imitação”, foi estrelado por Benedict Cumberbatch que deu vida ao pioneiro Alan Turing. Baseado, principalmente, nos trabalhos do matemático durante a Segunda Guerra Mundial, o filme retrata a genialidade e as peculiaridades que se sabe sobre a vida e a trágica morte de Turing.

Aclamado pela crítica, o filme recebeu 8 indicações ao Oscar e venceu na categoria “Melhor Roteiro Adaptado”.

O filme tomou algumas liberdades criativas, como por exemplo, dar o nome da máquina criada por Turing de Christopher, para representar seu primeiro grande amor. Como sabemos, a máquina se chamava “bombe”.

O título, o jogo da imitação, faz referência a uma ideia desenvolvida por Turing em 1950: poderia uma máquina enganar um ser humano fazendo-o acreditar que está conversando com uma pessoa? O teste de Turing sugere “o jogo da imitação”, que seria uma forma de avaliar se uma máquina poderia imitar o comportamento humano. Essas ideias foram por muito tempo adotadas para os estudos da inteligência artificial.

Por onde quer que você esteja lendo este artigo (notebook, computador de mesa, celular ou tablet), agora você sabe que o brilhante matemático Alan Turing foi uma importante figura por trás desta tecnologia.

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Luan Santos
Luan Santos
Jornalista formado desde 2013 pela Universidade Federal de Viçosa, especialista em produção e crítica cultural pela PUC Minas. Atualmente é mestrando em comunicação, arte e cultura pela Universidade do Minho e apaixonado por cinema clássico, musicais, livros e bons papos.