Rastaman Vibration: origem e história da religião rastafári


Gessica Borges
Revisão científica por Gessica Borges

A Rastafári é uma religião bem recente, se a compararmos com outras religiões. Nasceu em 1930, por ocasião da coroação de Rás Tafári, ou Haile Selassie (1892-1975), como novo imperador da Etiópia. Acredita-se, com base na profecia do ativista negro Marcus Garvey (1887-1940), que Rás Tafari foi a reencarnação do deus Jah.

A religião Rastafári tem uma base teológica sincrética (ou seja, formada por mais de uma religião): o cristianismo protestante, o judaísmo, além de religiões afro-jamaicanas. Na sua dimensão política e cultural, o movimento defende, entre outras coisas, o orgulho da herança cultural negra e a solidariedade negra mundial, ou pan-africanismo.

Rasta velho

Nascida na Jamaica, hoje a religião é conhecida mundialmente, tem milhões de seguidores em vários países e tornou-se, para além da religião, um movimento cultural. Já ouviu Positive Vibration do Bob Marley? Sim, é da religião Rastafári que ele está falando.

Rás Tafari: a reencarnação do deus negro Jah

O jamaicano Marcus Garvey foi um ativista negro anticolonialista e um dos expoentes do pan-africanismo. Ele havia profetizado, a partir de uma interpretação do Antigo Testamento, que estava para reencarnar o deus negro, ou Jah (abreviação de Jeová).

Por isso, em agosto de 1930, quando Tafari Makonnen foi alçado ao posto de imperador da Etiópia, muitos dos seguidores de Garvey viram aquilo como a realização da profecia. Jah havia reencarnado para salvar a África e as populações de origem africana espalhadas pelo mundo, finalmente libertando os negros da opressão branca. Lembremos que naquela época a Jamaica ainda era uma colônia britânica, situação que só se alteraria em 1962.

Do outro lado do Atlântico, na África, outros países de população negra encontravam-se na mesma situação. Não a Etiópia, que não só se mantinha independente, como agora possuía no poder a reencarnação de Jah.

Haile Selassie
O imperador Haile Selassie, o Rás Tafari: segundo os rastas, ele é a reencarnação de Jah.

As 3 filosofias que estão na base do movimento Rastáfari

No livro The Rastafari Movement, Michael Barnett explica o movimento Rastafári, em suas dimensões religiosa, cultural e política, a partir de 3 filosofias: o Pan-Africanismo, o Nacionalismo Negro e o Etiopianismo.

Pan-Africanismo

O Pan-Africanismo é um movimento filosófico e político surgido na segunda metade do século XIX, no contexto do neocolonialismo, época em que defendia a libertação dos países africanos e a formação de um único Estado africano. Daí o prefixo pan, que significa todo.

Mas o movimento ganhou muita importância fora da África entre pessoas de ascendência africana. Na Jamaica, Garvey foi um dos expoentes do movimento, que pregava a solidariedade dos negros em todo o mundo.

Marcus Garvey
Marcus Garvey, importante ativista negro, considerado profeta pelos seguidores da religião Rastafári.

Nacionalismo Negro

O Nacionalismo Negro é uma filosofia que surgiu no século XIX entre as pessoas de ascendência africana que viviam nas Américas. Uma de suas correntes defendia a formação de uma entidade nacional negra. Também havia aqueles que defendiam a igualdade política dentro dos países já existentes. Afinal, só é possível defender os interesses de um grupo quando este grupo consegue fazer ouvir a sua voz no processo de tomada de decisões.

Etiopianismo

Segundo Michael Barnett, o etiopianismo é um movimento religioso surgido na África do Sul no final do século XIX. Na Jamaica, misturou-se à Igreja Batista Negra e a crenças revivalistas (religiões afro-jamaicanas praticadas por negros escravizados). Partindo de uma interpretação particular do Antigo Testamento, os seguidores desse movimento consideram o território etíope sagrado e os negros o povo eleito.

O estilo de vida Rastafári: "Vem, vamos queimar a Babilônia!"

Bob Marley
Bob Marley, um dos maiores divuldares do Rastafári pelo mundo.

Você já ouviu Chant Down Babylon, do Bob Marley? O primeiro verso, "Come, we go burn down Babylon" ("Vem, vamos queimar a Babilônia"), já diz muito sobre o que vêm a ser as práticas religiosas dos adeptos da religião Rastafári.

A antiga capital da civilização babilônica, situada na Mesopotâmia há milhares de anos, tornou-se símbolo de degradação moral, sobretudo devido ao seu materialismo. Grandiosa, bem sucedida economicamente, também era lugar de orgulho e pecado, o que segundo a mitologia a teria levado à sua queda.

É contra os vícios das Babilônias do presente que os rastas se levantam. No caso, os países que fazem parte da chamada civilização ocidental, capitalista, construída sobre os pilares do lucro, do consumo, da competição e da exploração do trabalho.

Portanto, a negação do estilo de vida da Babilônia é um princípio importantíssimo dos rastas. É daí que surge a oposição natural-industrial ou a ideia de pureza que muitas vezes vemos associadas ao movimento.

Os 9 princípios Rastafári

  1. Não alterar a figura humana, o que inclui cortar o cabelo e fazer tatuagens. Isso explica a origem dos famosos dreadlocks, também conhecidos popularmente como corte rastafári.
  2. Dieta de purificação, praticamente vegetariana. O consumo de carne suína é absolutamente vetado.
  3. Veneração a Rastafári, mas sempre respeitando as demais crenças.
  4. Amor à irmandade universal.
  5. Desaprovação ao ódio, ciúmes e à inveja.
  6. Desaprovação aos prazeres das sociedades modernas. Nada de Babilônia!
  7. Obrigação: criar uma nova ordem mundial baseada na irmandade, e não nos princípios que regem a Babilônia.
  8. Caridade é um dever de todo e qualquer rasta.
  9. Respeito às antigas leis da Etiópia.

Maconha, ganja, cannabis: uma erva sagrada

Para os rastas, a maconha leva à iluminação. Nada de fumá-la só pra curtir um barato, dar risada ou simplesmente viajar, como o fazem os habitantes da Babilônia. Seu uso deve obedecer um determinado ritual, o que inclui necessariamente uma oração a Jah. O ritual de iluminação da mente chama-se "sessão de arrazoamento". O objetivo é que o rasta consiga atingir um ponto de iluminação que o faça pensar melhor sobre as questões da humanidade.

Para que possam exercer plenamente a sua religião, no entanto, possivelmente alguns rastas precisem burlar a lei: como se sabe, o cultivo e o consumo da planta são considerados crime em grande parte do mundo.

Alguns símbolos Rastafári

Bandeira rasta
A Bandeira Rastafári inclui o Leão de Judá e as cores da bandeira da Etiópia.

Leão de Judá

Talvez você já tenha reparado na imagem de um leão em bandeiras, camisetas ou mesmo discos de bandas re reggae. Trata-se do Leão de Judá, símbolo importantíssimo da religião Rastafári.

Como o nome sugere, o Leão de Judá vem do judaísmo. Mais precisamente, do Livro do Apocalipse, no Antigo Testamento:

Todavia, um dos anciãos me disse: Não chores; eis que o Leão da Tribo de Judá, a Raiz de Davi, venceu para abrir o livro e os seus sete selos.

Apocalipse 5,5

A expressão é uma metáfora, tanto na tradição judaica quanto cristã, para o Messias. No cristianismo, ele é Jesus. E se para os rastas o imperador etíope Haile Selassie é a reencarnação de Jah, ele é o Leão de Judá.

As cores vermelho, amarelo e verde

Essas cores estão presentes em todas as imagens associadas ao movimento Rastafári. Elas fazem referência às cores da bandeira etíope e representam a lealdade dos rastas do presente ao imperador Selassie, além de serem um símbolo do Pan-Africanismo e do Etiopianismo, filosofias que estão na base teórica do movimento.

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Gessica Borges
Revisão científica por Gessica Borges
Comunicadora, redatora, curiosa de berço e apaixonada por cultura em geral. Licenciada em Comunicação Social pela Universidade Anhembi Morumbi em 2012. Atualmente é mestranda em Estudos Africanos, produtora de conteúdo, revisora e trocadora de ideias.