Tripofobia: o que é e o que causa o "medo de buracos"


Tripofobia, conhecida como "medo de buracos", é a aversão a imagens que contenham agrupamentos de furinhos ou formas repetitivas, constituindo um padrão. A palavra é formada pelo prefixo "tripo" (que vem do grego trýpa, buraco) e pelo sufixo "fobia" (phóbos, medo).

Apesar de ainda não ser reconhecida oficialmente como uma fobia, há diversos relatos na internet de pessoas que se dizem desconfortáveis, sentindo até náuseas e tremores, quando veem determinadas imagens com esses padrões.

Favo de mel
Há pessoas que sentem arrepios ao olhar para um favo de mel. E você?

Qual é a causa dessa fobia?

É sempre difícil apontar a causa de uma determinada fobia. No caso da tripofobia, experimentos feitos em 2013 por dois pesquisadores britânicos do Centre for Brain Science, da Universidade de Essex, apontam que o "medo de buracos" é uma reação normal dos seres humanos cuja origem é uma habilidade evolutiva da nossa espécie de detectar possíveis ameaças.

Trata-se, portanto, do que vulgarmente se chama de instinto de sobrevivência.

Mas quais seriam essas ameaças?

As ameaças seriam animais potencialmente perigosos. No caso, animais altamente venenosos, como certos tipos de cobras, polvos, aranhas e escorpiões. Muitos desses animais apresentam padrões irregulares na sua pele, semelhantes a imagens que costumam gerar acessos tripofóbicos.

Isso faria com que os seres humanos associassem inconscientemente a imagem de um favo de mel, por exemplo, a esses bichos potencialmente perigosos. O resultado fisiológico dessa associação seria a aversão, a fobia.

Rã dardo venenoso
A rã-dardo-venenoso (Dendrobatidae), devido ao seu veneno, é um dos animais mais perigosos do mundo.

Segundo o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, uma fobia é um medo persistente de determinado objeto ou situação que invariavelmente provoca ansiedade.

Há pessoas que têm fobia de gatos, por exemplo. Chama-se ailurofobia. Há pessoas que tem fobia de aranha. Aliás, tem um filme bem famoso com esse nome: Aracnofobia. Há pessoas com medo de espaços abertos: agorafobia. Espaços fechados: claustrofobia. E há pessoas que têm fobia ou aversão a imagens quaisquer que apresentem padrões irregulares.

O que os pesquisadores ingleses concluíram é que esse tipo de aversão é provocada por um mecanismo de defesa que se originou ao longo do processo evolutivo da espécie humana.

Como os pesquisadores chegaram a essa conclusão?

Arnold Wilkins e Geoff Cole, ambos pesquisadores da Universidade de Essex, localizada no Reino Unido, ficaram curiosos com o que viram na internet sobre essa estranha fobia, sobre a qual não havia nada na literatura científica, muito meno no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais.

Os relatos que os pesquisadores encontraram eram assustadores: arrepios, aumento dos batimentos cardíacos, tremores, náuseas e até crises de ansiedade por conta de uma breve visão de imagens ou objetos que apresentem esses padrões. Diante disso, Wilkins e Cole resolveram investigar.

No primeiro experimento, eles reuniram uma amostra de 286 adultos (entre 18 e 55 anos) a fim de obter uma estimativa inicial de qual a porcentagem de pessoas tripofóbicas. Mostraram a eles a imagem de uma cabeça de flor-de-lótus. Ao todo, 46 pessoas (16%) relataram desconforto ou mesmo repulsa à imagem.

E você? Sente algum tipo de desconforto?

Cabeça da Flor-de-Lótus
A imagem da cabeça da flor-de-lótus gerou aversão em 16% dos indivíduos submetidos ao experimento.

Uma fobia de natureza visual

Uma das conclusões a que os pesquisadores britânicos chegaram é a de que a tripofobia é uma fobia de natureza visual. Ou seja, o que provoca a perturbação é a imagem, seja ela uma foto ou uma figura digitalmente manipulada.

Isso a diferencia da fobia a gatos, por exemplo. Neste caso, basta que uma pessoa esteja no mesmo recinto de um gato, ainda que não possa vê-lo, para apresentar os sintomas da ailurofobia.

Somos todos tripofóbicos em algum nível

Após a experiência inicial com a imagem da cabeça da flor-de-lótus, os pesquisadores buscaram mais imagens no Google e num site especializado em tripofobia.

Essas imagens foram exibidas para 20 estudantes de graduação da universidade, que, ao final, deveriam dizer como se sentiram durante a sessão de fotos por meio da atribuição de um valor: entre + 5 (conforto máximo) e - 5 (desconforto máximo).

Como a média foi - 0,42, os pesquisadores chegaram à conclusão de que mesmo entre não-tripofóbicos existe algum grau de aversão aos estímulos visuais. As imagens não são apenas perturbadoras para os que se dizem tripofóbicos, mas para os indivíduos de uma forma geral. O que muda é o grau de perturbação.

Uma fobia ancestral

A suspeita de que a causa da fobia estava relacionada a um mecanismo de defesa ancestral surgiu durante as pesquisas. Uma das pessoas submetidas aos experimentos relatou que a imagem de certos animais provocava nela uma aversão parecida com aquela causada pelas imagens de furinhos obtidas na internet.

Polvo de anéis azuis
O pequeno polvo de anéis azuis (Hapalochlaena) possui um veneno letal.

E o que havia em comum nesses animais? O fato de serem extremamente venenosos e possuírem características semelhantes às das imagens tripofóbicas.

Depois disso, os pesquisadores foram atrás de imagens dos 10 animais mais venenosos do mundo. Encontraram a seguinte lista:

  1. Polvo de anéis azuis (Hapalochlaena).
  2. Água-viva-caixa-australiana (Cubozoa).
  3. Aranha armadeira ou aranha-de-banana (Phoneutria).
  4. Escorpião deathstalker (Leiurus quinquestriatus).
  5. Cobra taipan (Oxyuranus microlepidotus).
  6. Cobra-real (Ophiophagus hannah).
  7. Caracol de cone-de-mármore (Conus marmoreus).
  8. Rã-dardo-venenoso (Dendrobatidae).
  9. Peixe-pedra (Synanceia verrucosa).
  10. Baiacu (Tetraodontidae).

A conclusão a que os pesquisadores chegaram foi a de que a tripofobia existe porque as imagens tripofóbicas compartilham características visuais com certas espécies altamente venenosas. Essa associação, obviamente, não é consciente.

O medo que sentimos é completamente irracional. Afinal, que mal pode causar uma imagem que contenha agrupamentos de furinhos na tela do nosso computador?

Apesar disso, a fobia existe. E sua origem é uma capacidade adquirida ao longo do processo evolutivo de notar organismos venenosos na natureza. Trata-se de uma predisposição inata (ou seja, que já nasce com a gente). A diferença entre os considerados tripofóbicos e os não-tripofóbicos é que os primeiros têm uma tendência exagerada a sentir medo.

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