Conheça os deuses mais populares da mitologia chinesa


Carlos Neto
Carlos Neto
Cientista Social

A mitologia chinesa é formada por elementos de três religiões diferentes: o confucionismo, o budismo e o taoísmo. Assim, os deuses sobre os quais falaremos a seguir vêm dessas três religiões, em especial o taoísmo.

Félix Guirand, no seu livro História das Mitologias, chama a atenção para uma característica peculiar da mitologia chinesa: o conjunto dos deuses (ou panteão) é uma cópia da sociedade chinesa. Da mesma forma como a sociedade se organiza, organizam-se os deuses na sua "sociedade" celeste, com seu corpo administrativo hierarquicamente organizado.

Cada ministério tem seu chefe e seus "funcionários", cada um deles com uma função previamente definida. Tudo é organizado à semelhança de um Estado. Líderes sucedem-se uns aos outros e funcionários podem ser "demitidos" e substituídos por outros mais competentes para exercer a função.

Outra particularidade da mitologia chinesa é que grande parte de suas divindades não tem origem divina, mas humana. Muitas delas já foram seres humanos um dia e, após a morte, tornaram-se deuses, geralmente devido às virtudes ou boas ações praticadas em vida.

Há muitos deuses na mitologia chinesa. E há deuses para muitas coisas: felicidade, literatura, lar, portas, riqueza, profissões etc.

Vamos conhecer alguns dos mais populares?

Yu-ti ou Augusto de Jade: o Supremo Imperador

Imperador de Jade
Seda do século XVI com uma representação do Imperador Augusto de Jade, do Museum of Fine Arts, em Boston (EUA).

Segundo Félix Guirand, na mitologia chinesa os deuses moram no Céu. Mas moram em lugares separados. Na verdade, a hierarquia que existe entre eles é traduzida em "andares", em cada um dos quais vivem determinados deuses. Quanto mais alto esse "andar", mais importante é a divindade. Yu-ti ou Augusto de Jade, o Supremo Imperador, reside com sua corte num suntuoso palácio localizado no "andar" superior. Ele é a autoridade máxima, o que quer dizer que todos os outros deuses estão subordinados a ele.

Yu-ti, também conhecido como Pai-Céu (Lao-t'ien-yeh) ou simplesmente Imperador de Jade, é o responsável pela criação dos seres humanos. Diz a lenda que o Imperador de Jade fez os seres humanos a partir do barro, tal como muitos outros mitos criacionistas que conhecemos. Após moldar as estatuetas, deixou-as no sol para secar.

Mas veio uma tempestade, e o Pai-Céu apressou-se em retirar suas pequenas criaturas da água. Algumas acabaram sendo danificadas por causa da água. Outras não. As danificadas deram origem às pessoas doentes, ao passo que as estátuas que saíram intactas originaram as pessoas saudáveis.

Yu-ti comanda tudo de seu palácio, tal como um imperador. Aliás, as semelhanças com um Império, tal como houve na China, é bem grande. A corte que cerca o Pai-Céu é constituída por oficiais e ministros, todos eles deuses de menor importância, e seu "império", como não poderia deixar de ser, ainda conta com um forte exército.

Augusto de Jade é casado com Wang-mu-niang-niang, a Rainha Mãe Wang, que vive com seu marido no palácio e organiza festas de imortalidade, onde os pêssegos são muito apreciados. Mas não são quaisquer pêssegos que são servidos nesses banquetes: esses pêssegos são especiais, pois são cultivados no jardim imperial e só amadurecem de 3 em 3 mil anos!

Daí o pêssego ter se tornado símbolo da longevidade para os chineses.

Lei-kong, o Senhor do Trovão

Deus do Trovão
Imagem de Lei-kong (autor não identificado) que ilustra o livro Mitos da China e do Japão (1923), de Donald Mackenzie.

Está para existir um deus tão horripilante quanto Lei-kong, também conhecido como Deus ou Senhor do Trovão. Geralmente é representado como um ser de corpo azulado, com garras no lugar dos dedos dos pés, asas, um rosto disforme e armado com uma machadinha e algo que se parece com uma adaga ou um cinzel. Só de olhar já dá medo, não é mesmo?

Mas o Senhor do Trovão, diz a lenda, só faz o mal para aqueles que cometem crimes. Assim, dá para dizer que Lei-kong é um deus associado ao cumprimento da justiça. Por exemplo: seres humanos que praticaram crimes graves (como assassinato) e, por algum motivo, não foram punidos pela justiça terrena geralmente não escapam da fúria justiceira do Senhor do Trovão.

Essa machadinha e essa adaga servem para isso mesmo que você está pensando...

Mas não apenas seres humanos de carne-e-osso podem ser punidos por ele. Espíritos que fazem o mal ou mesmo animais que assumem a forma humana para praticar crimes também estão na sua mira.

Félix Guirand conta uma lenda curiosa sobre o Senhor do Trovão. Certa vez, um caçador foi pego de surpresa na floresta por uma forte tempestade. Viu que havia, no topo de uma árvore bem alta, uma criança segurando um estandarte de pano e madeira. Quando o Deus do Trovão se aproximou da criança, ela pôs o estandarte entre ela e o Trovão, e este teve de se afastar.

É que o Senhor do Trovão não suporta coisas sujas. E o estandarte estava muito sujo.

O caçador entendeu que o Trovão queria punir aquela criança. Assim, resolveu ajudá-lo, acertando um tiro no estandarte e abrindo caminho para o Trovão destruir com um raio a árvore e a criança junto.

O raio foi tão forte que o caçador desmaiou. Quando acordou, encontrou um bilhete: "Vida prolongada. Doze anos por auxílio à obra do Céu". Ali ao lado, não havia nenhuma criança, mas um enorme lagarto morto. A criança nada mais era do que um disfarce usado pelo lagarto maléfico para praticar algum tipo de crime.

Os Reis-Dragões: governadores dos mares e controladores das chuvas

Dragão chinês

Os Reis-Dragões (Long-wang) são muito importantes no panteão chinês. Segundo as pesquisas de Félix Guirand, os Reis-Dragões vêm logo abaixo de Augusto de Jade e cada um possui um palácio, chamado Palácio de Cristal, e têm ministros, funcionários e um exército à sua disposição. Vários outros deuses estão submetidos a eles.

Existem quatro Reis-Dragões: Ngao Kuang, Ngao Juen, Ngao Chen e Ngao Chin. Cada um deles é responsável pelo cuidado de um dos quatro mares que existem na Terra. Eles são os governadores dos mares. Por isso, seus exércitos são formados por animais marinhos, como peixes e caranguejos, que os auxiliam a vigiar as profundezas marítimas.

Quem acredita nesses deuses associa a ocorrência das chuvas a sua vontade. Sim, os Reis-Dragões estão associados ao elemento água. Como já vimos, eles zelam pelos mares. Mas, de acordo com Guirand, mesmo o menor dos córregos está relacionado com os Reis-Dragões e, para os crentes, é melhor venerá-los para que nunca falte a tão preciosa água,

Há templos e cerimônias para os Reis-Dragões. Também são feitas procissões em homenagem a esses deuses.Tradicionalmente, os aldeões chineses faziam sacrifícios de animais a um Rei-Dragão para pedir chuva nos períodos de estiagem ou mesmo para parar a chuva quando há risco de inundação.

Hoje em dia, os Reis-Dragões ainda são muito venerados. Sua popularidade é tanta que uma das tatuagens mais comuns atualmente é a imagem de um Rei-Dragão. Se você não tem uma, certamente já viu várias por aí.

Cheu-sing: o deus da Longevidade

Deus da Longevidade
Estatueta de madeira representando Cheu-sing, com seus longos bigodes e sua enorme cabeça calva.

Muita gente diz que envelhecer é uma dádiva. E quem pode ou não conceder essa dádiva, segundo a mitologia chinesa, é Cheu-sing, geralmente representado como um velhinho baixo, com barba e bigodes brancos e um enorme crânio careca. Em algumas representações, Cheu-sing está segurando um pêssego, símbolo da imortalidade. Em outras, vem rodeado por animais que costumam viver muito tempo, como a tartaruga.

É ele quem determina quanto tempo cada um de nós vai viver. Você acredita em destino? Pois é. Saiba que, se depender de Cheu-sing, seu destino já está selado. Isso porque ele mesmo tratou de registrar em tábuas de madeira a data da morte de cada pessoa.

Mas não pense que Cheu-sing não pode mudar de ideia. Sua cabeça é grande, mas não é dura. Dependendo do agrado, ele pode muito bem modificar o destino. Afinal, tudo aquilo que se escreve pode ser apagado, não é mesmo?

Guirand relata uma história curiosa a esse respeito. Certo dia, um menino ofereceu uma garrafa de vinho a Cheu-sing sem saber que o destino lhe reservava uma vida curta. Nas tábuas do deus estava escrito que o menino morreria com apenas 19 anos de idade. Como Cheu-sing é chegado num vinho, em sinal de agradecimento ele modificou aquilo que havia escrito, trocando o 19 por 90.

Na China, tradicionalmente se fazem oferendas e homenagens a Cheu-sing quando alguém faz aniversário, principalmente no caso do aniversariante ser uma pessoa idosa. Diante da imagem do deus, as pessoas costumam acender velas e ofertar frutas. O objetivo é sempre agradar Cheu-sing a fim de garantir uma vida longa e saudável.

Vai fazer uma prova? Peça ajuda a Wen T'chang, o deus da Literatura

Deus da Literatura
Estatueta representando Wen T'chang, conhecido como o deus da Literatura ou do Conhecimento.

Aquilo que falamos no começo sobre os deuses da mitologia chinesa terem sido, originalmente, seres humanos vale para Wen T'chang, o deus da Literatura ou do Conhecimento. Foram ao todo 17 vidas para que Augusto de Jade se convencesse dos méritos de Wen para se tornar o Grande Imperador da Literatura.

Ele geralmente é invocado por estudantes que andam precisando de uma forcinha nos exames escolares. Sabe aquele empurrãozinho que pode fazer toda a diferença na hora da prova? Pois, para quem acredita, Wen T'chang ou qualquer um dos seus assistentes (como K'oei-sing) tem a capacidade de fazer verdadeiros milagres.

Diz a lenda que, na época das dinastias, um estudante invocou Wen T'chang após fazer um exame. Ele tinha estudado bastante, mas ainda assim não havia ficado feliz com seu desempenho na prova. À noite, o rapaz teve um sonho curioso: Wen T'chang pôs fogo em muitos papéis e, em seguida, mostrou um papel onde estava escrito um texto, que o rapaz decorou.

No dia seguinte, a surpresa: um incêndio havia destruído a casa onde as provas estavam guardadas. Foram aplicadas novas provas. Desta vez, bastava ao rapaz transcrever o texto que havia decorado no sonho. O resultado, claro, foi divino.

Pi-hia-Yuan-Kiun ou Kuan-Yin: protetora das mulheres e deusa da fertilidade

Deusa da fertilidade
No budismo, seu nome é Kuan-Yin, a deusa que está sempre sentada numa flor de lótus.

Há algumas versões para a deusa da Fertilidade. No budismo chinês, seu nome é Kuan-Yin. Na mitologia chinesa, é Pi-hia-Yuan-Kiun, filha do Grande Imperador do Pico de Leste, subordinado a Augusto de Jade e responsável por cuidar dos homens na Terra.

A deusa da Fertilidade também é conhecida como Princesa das Nuvens Matizadas ou simplesmente Santa Mãe. Tradicionalmente, sua função é proteger as mulheres. Durante os partos, dizem que ela está sempre a postos para garantir a saúde da mãe e do filho que está nascendo. Por isso, muitas representações dessa deusa trazem uma criança no seu colo.

Além disso, Kuan-Yin é conhecida por suas qualidades como curandeira. Assim, ela também é conhecida como a deusa da cura ou da misericórdia. Geralmente é invocada por pessoas que têm algum tipo de problema de saúde. Mas, com o tempo, ela acabou se tornando uma deusa com múltiplas habilidades e há pessoas que solicitam sua ajuda sempre que estão passando por momentos de aflição na vida.

Essa deusa ainda hoje é muito popular. Há diversos templos na China e em outros países em homenagem a ela. O principal deles fica na ilha de Putuoshan, no arquipélago de Chusan, para onde muitos budistas vão todos os anos para pedir a proteção ou mesmo prestar homenagens a Kuan-Yin.

Cai Shen: o deus da Prosperidade

Deus da Prosperidade
Estátua do deus da Prosperidade, datada do século XVII, em exposição no Royal Ontario Museum.

Este é um deus que costuma chamar a atenção mesmo de quem não é religioso ou não acredita nos deuses da mitologia chinesa. Sua popularidade explica-se por uma única palavra: riqueza.

Acredita-se que Cai Shen, pode ajudar uma pessoa a encontrar o caminho da prosperidade na vida. Por isso, costumam-se fazer oferendas a ele. Antigamente, os devotos faziam sacrifícios de animais para homenageá-lo.

Seu dia é o quinto do calendário lunar, quando, de acordo com a tradição, são feitos os sacrifícios diante da imagem do deus. Mas as homenagens e os pedidos a Cai Shen começam no ano anterior, mais especificamente na véspera do Ano Novo.

Afinal, quem nunca invocou seu deus (ou deuses) no réveillon para ter um Ano Novo próspero?

Todos os anos, no dia de Cai Shen, centenas de milhares de peregrinos vão ao templo de Guiyuan, na cidade de Wuhan, no centro da China, para rezar e acender incensos.

Leia também: Pés de lótus: a história por trás da tradição do pé de chinesa

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Carlos Neto
Carlos Neto
Formado em Ciências Sociais (FFLCH-USP), Carlos faz mestrado em Estudos Portugueses, com especialização em Literatura Portuguesa Contemporânea. É escritor e dá aulas de Redação e Sociologia na Educação Básica desde 2007.