Descubra a origem da lenda da Iara, a poderosa Mãe d'Água


A Iara é uma das principais personagens do folclore brasileiro. Dotada de grande beleza, com longos cabelos pretos, olhos esverdeados e metade do corpo de mulher e a cauda de peixe, habita os rios amazônicos e usa o seu canto hipnotizante para seduzir pescadores e levá-los para o fundo do rio.

Portanto, muito cuidado ao ouvir uma bela voz à beira do Rio Amazonas e seus afluentes, nunca se sabe onde a Iara irá atacar.

O seu nome tem origem do Tupi-guarani “y-îara”, no qual y significa água e îara quer dizer senhora, “senhora das águas”. É conhecida também como “mãe d'água”, “a beleza das águas” ou ainda “dominadora” e “rainha das águas”. Também é identificada como Uiara.

A origem da Mãe d'Água

mãe d'água

De acordo com a lenda, Iara era filha do pajé (curandeiro) de uma importante tribo amazônica. Muito habilidosa, era considerada a melhor guerreira da tribo e recebia muitos elogios do pai, o que despertou os ciúmes e inveja dos seus irmãos homens.

Uma noite, tomados por rancor os seus irmãos tentaram assassina-la enquanto dormia. Porém a guerreira conseguiu defender-se e, em meio à brutal batalha, acabou por ser ela a matar os irmãos.

Com medo da ira do pai, fugiu para o meio da mata. Entretanto foi encontrada e, como castigo, seu pai decidiu joga-la no encontro entre os rios Negro e Solimões. Compadecidos da situação trágica da índia, os peixes a levaram de volta à superfície e a transformaram na poderosa Iara, sob a luz da lua cheia.

Será? Ou talvez...

Existem também registros de cronistas dos séculos XVI e XVII em que a personagem mitológica aparece sob uma forma masculina, um homem-peixe chamado Ipupiara, o qual devorava os pescadores e os levava para o fundo do rio. A partir do século XVIII Ipupiara se torna a sedutora Iara na forma como é conhecida ainda hoje.

A criadora da Pororoca

A Pororoca é um fenômeno natural decorrente do encontro das correntes fluviais com o oceano, o qual gera uma forte onda que pode chegar a 30 km/h e 6 metros de altura que percorre o Rio Amazonas e seus afluentes.

Reza a lenda que a canoa favorita de Iara, a Jacy, foi roubada de sua casa na Ilha do Marajó. Na tentativa de encontrar o ladrão, Iara chamou todos os filhos para revirarem as águas em busca da canoa. A Vazante, a Enchente, a Correnteza, o Rebujo, o Remanso, o Repiquete, a Reponta, a Preamar, a Maré Morta e a Maré Viva procuraram por todos os cantos sem sucesso.

Já sem saber onde procurar, surgiu a ideia de criar a Pororoca, uma forte onda capaz de arrastar tudo o que encontra pela frente e, assim, encontrar Jacy. Pondo o plano em prática, a Maré da Lua, a sapeca filha caçula de Iara, ficou responsável por avisar sobre qualquer situação anormal.

Jacy nunca mais foi vista, mas uma vez por ano Iara ainda ordena a busca por sua canoa e nos brinda com a Pororoca.

Principais representações nas artes

As Iaras
As Iaras, de Alfredo Ceschiatti (Palácio da Alvorada)

Presente de diferentes formas no imaginário e nas artes brasileiras, a senhora das águas está representada no Palácio da Alvorada em Brasília através da escultura de bronze de Alfredo Ceschiatti.

Também foi imortalizada na obra do poeta parnasiano Olavo Bilac com o poema A Iara:

Vive dentro de mim, como num rio,

Uma linda mulher, esquiva e rara,

Num borbulhar de argênteos flocos, Iara

De cabeleira de ouro e corpo frio.

Entre as ninféias a namoro e espio:

E ela, do espelho móbil da onda clara,

Com os verdes olhos úmidos me encara,

E oferece-me o seio alvo e macio.

Precipito-me, no ímpeto de esposo,

Na desesperação da glória suma,

Para a estreitar, louco de orgulho e gozo...

Mas nos meus braços a ilusão se esfuma:

E a mãe-d'água, exalando um ai piedoso,

Desfaz-se em mortas pérolas de espuma.

Bilac descreve a sedução e ataque da Mãe D'água. Dizem ainda que os homens que conseguem se salvar da armadilha da Iara ficam loucos e só conseguem se recuperar se forem tratados por um pajé.