Entenda de uma vez a relação entre a Coreia do Norte e os Estados Unidos


Desde o fim de 2017 o presidente Donald Trump e o líder norte-coreano Kim Jong-un entraram em uma crescente guerra de palavras. À medida que as discussões se intensificaram, o mundo passou a temer que essa disputa possa gerar um confronto militar.

Mas onde essa relação turbulenta teve início? Veja ao longo dos anos como foi a relação entre os Estados Unidos da América e a Coreia do Norte até chegar ao ponto atual.

A Coreia do Norte dá seus primeiros passos  

Complexo Nuclear de Yongbyon
Complexo Nuclear de Yongbyon

As intenções da Coreia do Norte de ter uma arma nuclear existem desde a Guerra da Coreia. Eles sentiram que precisavam desenvolver sua defesa no caso de um ataque americano, visto que em 1950 o presidente Harry Truman disse que havia uma "consideração ativa" de usar a bomba atômica no conflito.

Então, com a ajuda da União Soviética, a Coreia do Norte começou a trabalhar em um complexo nuclear e, no início da década de 1980, construiu sua primeira usina, Yongbyon.

Em um primeiro momento, Pyongyang insistiu que seus objetivos eram pacíficos, tornando-se parte do Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNP) em 1985 e assinando um acordo em 1991 com a Coreia do Sul, onde ambas concordaram em não produzir ou usar armas nucleares.

Porém, com a pressão da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) para ter acesso aos locais de resíduos nucleares do Norte, o país alertou que se retiraria do TNP.

1994-2001: Clinton chega a um acordo com a Coreia do Norte

No início de 1994, a Coreia do Norte ameaçou reiniciar os trabalhos de seu reator nuclear, o que lhe daria plutônio suficiente para cinco ou seis armas nucleares. A administração Bill Clinton tentou negociar com Pyongyang, porém, durante esse tempo o ditador fundador da Coreia do Norte, Kim Il-sung, morreu, e seu filho Kim Jong-il assumiu o cargo de líder.

Em outubro de 1994, as negociações resultaram em um acordo, onde a Coreia do Norte concordou em congelar e depois desmantelar suas instalações nucleares em troca de uma normalização das relações com os Estados Unidos e de ajuda econômica, além de receber remessas de óleo combustível e assistência para a construção de reatores de água leve. A Coreia do Norte então fechou seu reator nuclear e interrompeu a construção de outros dois.

Apesar dos acordos, a Coreia do Norte testou um míssil de alcance intermediário em 1998, chamado Taepo Dong-1, que acabou falhando. Após a falha, a Coreia do Norte concordou com a suspensão de testes de mísseis de médio e longo alcance, contanto que os acordos com os EUA continuassem. 

2001-2003: A relação entre os países volta a se agravar

Eixo do mal
Coreia do Norte, Irã e Iraque formam o "eixo do mal"

Quando o presidente George W. Bush assumiu o cargo em 2001, sua administração adotou uma abordagem mais rígida com a Coreia do Norte, adiando conversas e questionando se Pyongyang estava realmente respeitando o acordo. A Coreia do Norte advertiu Washington que essa atitude a forçaria a agir.

Em 2002, Bush classificou a Coreia do Norte como uma das três nações do "eixo do mal", que seriam os países que possuíam armas de destruição em massa e patrocinavam o terrorismo.

No mesmo ano, foi feita a acusação de que a Coreia do Norte enriqueceu urânio secretamente, e as transferências de óleo combustível que foram acordadas pelo presidente Clinton foram suspensas. No final de 2002, a Coreia do Norte ordenou que os inspetores da AIEA saíssem do país.

Em janeiro de 2003, a relação se tornou ainda pior, com a saída oficial da Coreia do Norte do Tratado de Não-Proliferação. Quatro meses depois, autoridades norte-americanas disseram que a Coreia do Norte admitiu ter pelo menos uma arma nuclear.

2003-2006: Um novo acordo é feito

Em 2003, a administração Bush se reuniu com a Coreia do Norte,  juntamente com a Coreia do Sul, Japão, Rússia e China no que veio a ser conhecido como Diálogo a Seis.

As negociações entre os países produziram uma declaração conjunta, na qual a Coreia do Norte novamente concordou em desistir do seu programa de armas nucleares, ingressar no Tratado de Não-Proliferação e aceitar as inspeções da AIEA. Em troca, os outros cinco países concordaram em dar uma assistência energética e discutiram um futuro fornecimento de reatores de água leve para a Coreia do Norte.

No entanto, o progresso dessa relação não durou muito tempo, pois, em julho de 2006, a Coreia do Norte quebrou sua moratória de 1999 sobre testes de mísseis de médio e longo alcance, e lançou sete mísseis balísticos.

2006: O primeiro teste nuclear

Teste nuclear

Em outubro de 2006, a situação atingiu um estágio perigoso com o primeiro teste nuclear da Coreia do Norte, que declarou essa foi uma resposta à pressão e às ameaças dos Estados Unidos. As Nações Unidas responderam rapidamente com uma resolução que exigia que a Coreia do Norte deixasse de testar armas nucleares e abandonasse seu programa de mísseis.

Apesar disso, as negociações entre os seis países começaram a mostrar resultados. Em julho de 2007, a Coreia do Norte desligou suas instalações nucleares em Yongbyon, e concordou em desativá-las.

Em contrapartida, o país receberia óleo combustível e seria retirado da lista americana do “eixo do mal”. No entanto, desentendimentos sobre o monitoramento das ações da Coreia do Norte levaram ao fim de mais um acordo.

2009: Um segundo teste nuclear

Em seu primeiro discurso após ser eleito como presidente, Barack Obama disse aos líderes que possuíam uma relação de conflito com os EUA que estaria disposto a lhes estender a mão, caso se rendessem primeiro.

Três meses depois, a Coreia do Norte lançou o foguete Unha-2, com o objetivo de colocar um satélite no espaço. Os EUA e seus aliados alertaram Pyongyang que considerariam esse lançamento uma violação das resoluções das Nações Unidas.

O lançamento falhou, e o Conselho de Segurança reforçou de novo as sanções, porém a Coreia do Norte respondeu dizendo que não iria aderir a mais nenhum acordo entre os seis países, e ameaçou reativar suas instalações nucleares. Dias depois, ordenou a retirada do dos inspetores da AIEA do país, e no dia 24 de maio, a Coreia do Norte realizou seu segundo teste nuclear subterrâneo, estimado em quatro quilotons.

Em 2011, Pyongyang insinuou que estaria disposto a retomar as negociações multilaterais, porém, o líder norte-coreano Kim Jong-il faleceu, e seu filho mais novo, Kim Jong-un, foi nomeado líder da Coreia do Norte.

2012-2016: O regime de Kim Jong-un e o aumento dos testes

Bomba de Hidrogênio
O ritmo dos testes nucleares e de mísseis balísticos aumentou consideravelmente sob o regime de Kim Jong-un.

Apesar de firmar um acordo com a administração de Obama em fevereiro de 2012, para a suspensão de testes de mísseis nucleares e de longo alcance, a Coreia do Norte mais uma vez tentou um lançamento espacial, que acabou falhando.

Em dezembro de 2012, a Coreia do Norte fez mais um teste, desta vez lançando com sucesso o foguete Unha-3 e colocando um objeto em órbita pela primeira vez em sua história.

O Conselho de Segurança das Nações Unidas condenou o lançamento, porém a resposta internacional não intimidou o novo líder. Entre 2013 e 2016, a Coreia do Norte realizou mais três testes nucleares, cada um mais poderoso do que o anterior, e em setembro de 2016, a Coreia do Norte afirmou o teste de sua primeira bomba de hidrogênio.

2017: A guerra de palavras entre Trump e Kim Jong-un

Em 2017, a relação entre a Coreia do Norte e os EUA esquentou devido as ameaças trocadas entre as duas partes.

Depois do sucesso da Coreia do Norte em seu teste de mísseis balísticos intercontinentais e da bomba de hidrogênio, estimada em 250 kilotons, Trump fez uma declaração dizendo que se os EUA fossem forçados a se defender, eles teriam que destruir totalmente a Coreia do Norte. Kim Jong-un respondeu chamando o presidente dos EUA de "mentalmente perturbado" e advertindo que ele "pagaria caro" pela ameaça de destruir a Coreia do Norte.

A partir de agora existem duas saídas: ou os EUA escolhem tratar a Coreia do Norte tenta resolver a situação de força pacífica, ou deve considerar opções militares, o que poderia se agravar para uma guerra com potencial de destruição nunca visto antes. 

Veja o comparativo entre as forças militares de cada país:

Coreia do Norte x Estados Unidos