Conheça 4 mitos africanos sobre a origem dos seres humanos


Gessica Borges
Revisão científica por Gessica Borges
Escrito por Carlos Neto

"E criou Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou".

Com certeza você já leu ou ouviu essas palavras, que estão no Gênesis, primeiro livro tanto da Bíblia Hebraica quanto da Cristã. Elas foram proferidas por Deus no sexto dia da criação, quando fez todos os seres vivos, dentre os quais os humanos.

Mas há outras histórias da criação, menos conhecidas por quem foi criado com os referenciais da chamada cultura ocidental. Diversas culturas, do passado e do presente, têm suas crenças a respeito da origem do universo, da terra, dos mares e dos seres vivos.

A mitologia africana, por exemplo, está repleta de boas histórias sobre a origem dos seres humanos.

Vamos conhecer algumas delas?

1 - O mito macua dos dois buracos na terra

Família macua
Família macua em Nampula, no Norte de Moçambique, em foto tirada por Steve Evans em 2005.

Os macuas estão espalhados pelo norte de Moçambique e Tanzânia e tradicionalmente cultuam um ser supremo chamado Muluco. Félix Guirand, no seu clássico História das Mitologias, conta o mito macua da criação da seguinte forma:

No princípio de tudo, deus, ou Muluco, fez dois buracos na terra, de onde saíram um homem e uma mulher.

Mulcuco deu a este primeiro homem e a esta primeira mulher todas as condições para que se instalassem num determinado território e tivessem meios de subsistência. Deu-lhes terra boa para plantar e enxada, machado para conseguirem madeira para construírem sua casa e obter fogo, panelas, pratos e algumas espigas de milho.

O primeiro casal da humanidade estava com a faca e o queijo na mão, como se diz. Tinha tudo de que necessitava para ali prosperar e gerar descendentes.

Porém, tal como Adão e Eva, o casal macua desobedeceu Muluco. Em vez de construir sua casa e cultivar a terra, os dois comeram o milho cru, quebraram os pratos, jogaram lixo nas panelas e foram viver no meio do mato.

O que Muluco fez? Como punição, chamou o primeiro macaco e a primeira macaca e deu a eles tudo o que tinha dado ao casal humano: ferramentas, terra, milho. E o casal de macacos, ao contrário dos humanos, trabalhou.

Muluco, então, tirou os rabos do macaco e da macaca e colocou-os nos humanos. E disse aos macacos: "Sejam homens!". E aos humanos: "Sejam macacos!". E assim se fez.

2 - O mito massai da origem da vida e da morte

Povo massai
Os massais são um grupo étnico seminômade e dedicado às atividades pastoris.

A etnia massai ainda hoje preserva suas tradições culturais. Possui uma população de quase 1 milhão de pessoas, espalhadas entre o norte da Tanzânia e o Quênia.

De acordo com a cosmogonia massai, o universo sempre existiu. Mas há um deus responsável pela criação do mundo habitado: seu nome é Ngai.

No princípio de tudo, de acordo com a mitologia massai, existia apenas um homem, chamado Kintu. Tudo mudou quando a filha do Céu se apaixonou por Kintu e conseguiu convencer seu pai a aceitar o casamento.

Kintu foi chamado ao Céu, onde foi desafiado por Ngai com uma série de provas, das quais saiu vencedor. O prêmio por sua bravura foi a mão da filha do Céu, que desceu à Terra levando como dote animais e plantas. Porém, uma advertência tinha sido feita por deus antes do casal partir em viagem para a Terra: era proibido voltar.

Claro que a ordem não foi cumprida. Aliás, essa parece ser mesmo uma marca desses mitos de criação.

Antes de chegar à Terra, Kintu se lembrou de que havia se esquecido dos grãos para alimentar as aves. Sua mulher implorou para ele não voltasse ao Céu. Mas ele voltou.

Um dos filhos de deus, a Morte, estava ausente na época do casamento e não sabia do que tinha acontecido. Quando o homem entrou no Céu para buscar os grãos, deu de cara com a Morte, que ficou furiosa.

A Morte agarrou os pés do homem e desceu com ele à Terra, instalando-se perto da sua casa. Todos os filhos que nasceram do casamento entre Kintu e a filha do Céu foram mortos. Deus enviou outro filho para espantar a Morte, mas esta era muito esperta e levou a melhor em todas as armadilhas que lhe foram feitas.

Foi o início da soberania da Morte na Terra.

3 - A origem das diferenças raciais para os chiluques do Nilo Branco

Chiluque no Nil Branco
"Homem branco" e homens chiluque, em foto tirada na década de 30.

A teoria criacionista chiluque é específica em relação à origem das diferenças raciais entre os seres humanos.

A explicação está na cor do barro encontrado em cada região no momento em que cada raça foi criada. Isso nos faz lembrar mais uma vez do Gênenis. Afinal, o Deus dos cristãos e dos judeus criou o homem do barro da terra e, após ter feito isso, inspirou-lhe vida soprando-lhe as narinas. Para não deixá-lo só, fez Adão pegar sono e retirou-lhe uma costela, com a qual deu origem à mulher.

Juok, o deus criador de tudo, também se utilizou do barro para dar corpo aos primeiros seres humanos. Os homens brancos são assim porque, na altura em que os criou, encontrou areia branca. No Egito, usou a argila do Rio Nilo para dar origem aos povos dessa região. Os chiluques do Nilo Branco, na região da África Oriental, foram feitos da terra preta.

Segundo contam os chiluques, Juok teria dito as seguintes palavras no momento da criação:

Vou fazer um homem, mas para que ele possa correr, andar, vou dar-lhe duas pernas longas, semelhantes às patas dos flamingos.

É preciso que o homem possa cultivar o milho; darei a ele dois braços: um para manejar a enxada, o outro para arrancar as ervas daninhas.

Para que o homem possa ver, darei a ele dois olhos.

Para que possa comer o seu milho, darei a ele uma boca.

Félix Guirand, História das Mitologias

Por último, para que a sua criatura pudesse cantar, falar, dançar, gritar e escutar, vieram a língua e as orelhas, sem as quais o ser humano não poderia se comunicar nem produzir cultura. E assim, segundo a história, "o homem ficou perfeito".

4 - A origem da bondade e da maldade segundo o povo ewe

Músicos ewe
Músicos ewe se apresentam na vila de Kouma-Konda, perto de Kpalime, Togo. Autor: David Stanley, 2015.

Mais um mito de criação envolvendo barro. Só que desta vez o que está em jogo é a qualidade da argila utilizada, que irá definir a índole das pessoas criadas.

Para as tribos que falam o idioma ewe, pertencentes ao Togo, Gana e Benim, diz a tradição que, no início de tudo, para habitar a Terra deus criou o homem e, mais tarde, a mulher. Ambos vieram do barro. Até aí, bem parecido com outros mitos de criação.

A diferença deste mito em relação aos outros é que, no momento em que homem e mulher encontraram-se lado a lado, puseram-se a rir. Gargalharam muito. E depois disso saíram pelo mundo.

Mas deus não parou por aí. Ele continua usando o barro para dar vida a novas pessoas. A pessoa boa é feita com argila boa. A má, com argila ruim. É de se perguntar se tradicionalmente os povos ewes acreditam em nuances (pessoas nem tão boas, nem tão más) ou na possibilidade de transformação ao longo da vida. Mas o relato de Félix Guirand não vai além disso.

Em relação à morte, os ewes têm um mito muito interessante. Como outros mitos que tratam da condição humana, nota-se a ocorrência de um acontecimento infeliz que selou desde a origem o destino dos seres humanos.

Neste caso, a desgraça tem a ver com animais. Vejamos o que aconteceu.

Certa vez, os homens enviaram um cachorro a deus para lhe pedir uma coisa que desejavam muito: queriam poder retornar à vida após a morte.

O cachorro foi. Mas no caminho sentiu fome e entrou numa casa onde um homem cozinhava.

Enquanto isso, uma rã foi a deus com uma mensagem oposta: disse a ele que os homens lhe tinham dito que não desejavam voltar à vida depois da morte.

Quando o cachorro finalmente chegou a deus, era tarde demais. Deus disse estar confuso com aquelas duas mensagens e, como a da rã tinha sido a primeira, decidiu não dar aos seres humanos a possibilidade de reencarnação.

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Gessica Borges
Revisão científica por Gessica Borges
Comunicadora, redatora, curiosa de berço e apaixonada por cultura em geral. Licenciada em Comunicação Social pela Universidade Anhembi Morumbi em 2012. Atualmente é mestranda em Estudos Africanos, produtora de conteúdo, revisora e trocadora de ideias.